A família tóxica é uma realidade da vida de uma grande parte de pessoas LGBTQIA+ e essa toxicidade acaba sendo tão normalizada, que muitos de nós acaba se sentindo obrigado a conviver – e a amar – com membros da família que não expressam amor, aceitação, compreensão, ou sequer tentam entender suas questões de sexualidade, gênero e diversidade.

Mas o conceito de família tóxica é muito mais abrangente quando pensamos na saúde mental da pessoa LGBTQIA+ e na violência psicológica que ela consistentemente precisa sofrer para continuar desfrutando de uma casa, comida, acesso a escola e condições básicas de sobrevivência: é a família passiva-agressiva. Ela faz você acreditar que está tudo bem, que te aceita, mas tem ressalvas, que te ajuda, mas tem limites, que te ama, mas que poderia ser diferente e até vai tentar fazer você mudar. Então não está tudo bem.

Família tóxica e o afastamento familiar

Um estudo publicado em um artigo da BBC mostra que “filhos adultos se distanciam dos pais porque não conseguem estabelecer comunicação sobre o que os incomoda, então, eles não conseguem chegar a um acordo”, ou seja, muitos pais e mães não querem dialogar com seus filhos LGBT, fazem a famosa vista grossa e perpetuam o “se eu não sei, então não existe”.

Esse afastamento é, em geral, permeado de mágoas, cobranças, deveres desnecessários e, por vezes, brigas familiares que levam à ruptura definitiva do indivíduo com aqueles que deveriam ou poderiam ser seu porto seguro. Mas a questão é, quando essa família se recusa de toda forma a compreender sua sexualidade e não demonstra amor e apoio, você tem a obrigação de amar e cuidar deles em retorno?

Não. Família é uma ocasionalidade genética. Você não escolheu nascer naquele seio homofóbico, muito menos optou por ser sustentado por ele parte de sua vida. Então, é importante que essa estrutura normativa de “amar pai e mãe” baseada em conceitos religiosos seja desconstruída e que isso dependa de fatores sócio-emocionais benéficos e não obrigatórios.

Ninguém é obrigado a amar um pai que o espanca, humilha, o expulsa de c asa. Ninguém é obrigado a cuidar de uma mãe que aceitou coo família o marido da sua irmã, a esposa do seu irmão, mas nunca aceitou seu companheiro (a) do mesmo sexo. Ninguém tem “obrigações familiares” por questões consanguíneas. É preciso desapegar, ainda que exista dor dentro desse processo.

A família tóxica quer mudar e moldar a sua individualidade, ela quer que você subscreva a um modelo aceitável de ser social para ser gay, lésbica, bissexual, (e quase nunca trans), porque é a única forma de conseguir lidar com a sua diversidade. E aceitar essa proposta é se contentar com uma vida de migalhas, é cercear seus desejos e planos de vidas que serão afogados para dar espaço aos “sonhos que sua mãe planejou para você”. Viva seus sonhos.

O fato é que cada um de nós podemos construir uma nova família quando nos convier, porque família é quem nos cria por inteiro, aceitando e amando nossa diversidade, incluindo nas atividades familiares tradicionais a nossa diferença e lutando contra o preconceito promovendo proteção e compreensão.

Desapegue da família que não te ama, porque ser LGBTQIA+ já nos traz enfrentamentos político-sociais que perdurarão pela vida inteira e cada peso eliminado de nossas costas conta para uma vida melhor em um mundo LGBTfóbico que estamos fadados a viver. Cada fardo que nos livramos nos aumenta as chances de uma expectativa de vida maior sem culpas e obrigações as quais não escolhemos e família está incluso nesse processo.

Nenhum de nós merecemos viver em uma família tóxica por quaisquer que sejam os motivos. Portanto não pense na dor, nem nos fatores sociais que ligam você a este grupo, apenas desapegue e trate de ser feliz ao lado de quem realmente ama você.