Estatisticamente e historicamente, o número de personagens com deficiência criados, escritos e interpretados por pessoas com deficiência é muito pequeno. Apesar de existirem muitas pessoas com deficiência na sociedade, pouco é refletido nas telas e produções audiovisuais de qualquer canal de TV ou plataforma de streaming.

Um estudo de 2016 do Ruderman White Paper mostrou que apenas 2% dos personagens da TV são pessoas com deficiência e o pior, 95% desses papéis são interpretados por atores que não possuem qualquer deficiência, sem abrir oportunidades profissionais para atores PCD.

Ryan O’Connell, o criador, escritor e estrela da série Special, da Netflix, vem mudando este cenário ao ser o responsável pelo único programa produzido e estrelado por uma pessoa com deficiência, e que além de tudo, é gay.

Em entrevista à OUT Magazine, ele fala sobre “corrigir o curso da história de Hollywood, que ama lucrar com a dor das pessoas marginalizadas, mas nem sempre abre oportunidades para as mesmas”.

Nascido com paralisia cerebral, condição que prejudica os movimentos, o equilíbrio e as habilidades motoras, ele também foi atropelado por um carro ainda jovem, o que agravou sua condição.

A série Special ganhou elogios de críticos e telespectadores por seu retrato autêntico de um jovem gay com deficiência, que não conta às pessoas que sua deficiência é causada por paralisia cerebral – e não pelo acidente de carro sofrido – enquanto vai atrás da vida que deseja. A primeira temporada recebeu três indicações ao Emmy, incluindo uma indicação de atuação para O’Connell, uma indicação e momento inédito.

Ryan O'Connell. (Foto: Easton Schirra / Out Magazine)
Ryan O’Connell. (Foto: Easton Schirra / Out Magazine)

Bem antes de Special, Ryan O’Connell escreveu para a Vice, BuzzFeed e The New York Times. Um artigo para o Thought Catalog o levou a um contrato de livro e atraiu a atenção do ator e produtor Jim Parsons (The Boys in the Band / The Big Bang Theory), que o ajudou a viabilizar o sonho da série.

Nesse ínterim, O’Connell mudou-se para Los Angeles, onde se tornou roteirista de Awkward da MTV e, em seguida, editor executivo de roteiros no reboot de Will & Grace. Ele também escreveu para o Beverly Hills 90210 redux BH90210.

Special chegou a ser disputado por várias emissoras e produtoras quando ele ofereceu inicialmente, mas Ryan revela que relutou pelo medo de fechar com alguma rede que iria propor alterações no roteiro, especialmente quando se trata de descrições francas da sexualidade gay e da vida de pessoas com deficiência, cruzando com muita honestidade e sem pudores os universos destas duas minorias.

Ryan O’Connell rejeitou ofertas, mas persistiu até que Special foi finalmente escolhido pela Netflix como uma série de formato curto e com episódios de apenas 15 minutos – dando ao roteirista mais um desafio a superar.

O orçamento apertado do projeto o levou a brilhantes decisões, como colocá-lo ocupando o papel principal. O ator novato admite agora: “Eu acho que bem no fundo, bem no fundo da minha alma, havia definitivamente uma parte de mim que estava tipo, ‘Eu gostaria de poder estar na frente da câmera sim!’. Mas definitivamente este não era um pensamento inicial, ficou adormecido por muitos e muitos anos. ”

Mas, Ryan O’Connell lembra que, após Special, não devemos achar que a diversidade já tem seu lugar garantido em Hollywood: “A sociedade como um todo tem problemas com a deficiência. Acho que a deficiência lembra as pessoas do envelhecimento, mortalidade e falibilidade geral ”, diz ele. “Também é quase inevitável, eventualmente, todos nós ficarmos incapacitados se vivermos muito. Esse é um conceito assustador e que as pessoas não gostam de lembrar”.

Ele ainda afirmou: “O capitalismo é tão costurado em produtividade e … trabalhe, trabalhe, trabalhe, como se esforçar até a exaustão. E isso está ligado ao fato de ser fisicamente capaz. Pessoas com deficiência são muitas vezes vistas como menos produtivas e isso ameaça o capitalismo. E isso é irônico porque pessoas com deficiência são como qualquer outra e muitas vezes ainda, mais criativas do que as outras”.

Mesmo conseguindo realizar o sonho de produzir sua série em uma grande plataforma de streaming como a Netflix, Ryan O’Connell contou com desvantagens. Além de um orçamento baixo, ator estreante escreveu todos os episódios e contou com uma diretora iniciante, Anna Dokoza, que, apesar de ser uma produtora experiente, ainda não havia se aperfeiçoado em direção. Felizmente ela se saiu muito bem e a série foi um sucesso.

Ryan O'Connell. (Foto: Easton Schirra / Out Magazine)
Ryan O’Connell. (Foto: Easton Schirra / Out Magazine)

Sobre sua sexualidade, o ator confessa lamentar não se ver como alguém desejável ou sexualizável por muitas pessoas só viver com deficiência: “Muitas vezes me sinto visto como um boneco Ken, sem as partes íntimas, sem sexo.”, lembrando como as pessoas com deficiência foram dessexualizadas historicamente.

Para ele, era fundamental que o público “visse o personagem de Ryan como sexualmente viável e ativo” na série, o que é um dos fatos inovadores da obra, onde em um episódio ele perde sua virgindade com um garoto de programa.  A cena de sexo gay realista, direta e quente, mas carinhosa, também é uma das representações mais destigmatizantes do trabalho sexual masculino já retratada na telinha, quebrando tabús em dobro, tanto com pessoas com deficiência quanto com profissionais do sexo.

“Era importante para mim que aquela cena de sexo também parecesse sexy”, diz O’Connell. “Nós somos seres sexuais também, ainda que pessoas com deficiência tenham tido isso negado por tanto tempo!”.

Capa da OUT Magazine com Ryan O'Connel. (Foto: Divulgação / Out Magazine)
Capa da OUT Magazine com Ryan O’Connel. (Foto: Divulgação / Out Magazine)

O ano passado trouxe novos obstáculos para O’Connell, como o atraso na segunda temporada de Special (com estreia prevista agora para o final de 2021) por conta da pandemia: “Estranhamente, em face do medo implacável, ansiedade e tristeza,” ele diz que foi capaz de produzir muito. Agora, ele e Jim Parsons já estão trabalhando em uma nova “tragi-comédia” de meia hora chamada Acessível, que também traz questões de sexualidade e a vida de pessoas com deficiência.

À revista Out Magazine, Ryan O’Connell se disse determinado a mudar a indústria do entretenimento para que ela abrace mais as pessoas com deficiência e suas histórias: “Agora tenho esta possibilidade e quero aproveitar ao máximo que puder. Para dar oportunidades e abrir portas para escritores e atores com deficiência, ajudá-los a conseguirem também seus próprios programas”.

Criador Põe na Roda, canal do youtube de humor e informação LGBT desde 2014, com mais de 150 milhões de visualizações e 1 milhão de inscritos. Autor do livro "Um Livro Pra Ser Entendido", que desmistifica questões do mundo gay e sobre ser LGBT para todos os públicos. Também foi roteirista de TV (Amor & Sexo, Adnight, CQC, Furo MTV) e colunista (Folha de S. Paulo).