A novela “Segundo Sol”, da TV Globo, vem sendo acusada de fazer apologia a cura gay, o nome dado a tortura sempre sem resultado de se forcar uma pessoa de orientação sexual diferente da maioria a mudar o seu desejo para ser hetero.

Acontece que, na trama, a personagem Selma era casada, mas tinha uma relação extra-conjugal com Maura, que, por sua vez, foi apresentada desde o início como uma mulher lésbica. 

Com a morte do marido, Selma assumiu o romance com Maura. As duas foram viver juntas e resolveram ter um filho por inseminação artificial. Até aí tudo certo.

Só que  doador do sêmen é Ionan, colega de trabalho de Maura e que tem um casamento atribulado com Doralice.

Ionan acaba se envolvendo com Maura em uma relação de paixão enquando Selma se torna a esposa inconveniente, ciumenta e chata da relação das duas.

VÍDEO NOVO DO PÕE NA RODA:

Fica claro segundo o roteiro uma inclinação ao público torcer pelo novo casal hetero.

Maura e Ionan acabaram se beijando no capítulo de sábado (25/08). Selma, que traía o marido com uma mulher, agora é traída pela esposa, com um homem.

Claro que não há problema em Maura ser bissexual – não tivesse a personagem desde o início sido apresentada como lésbica. 

E não há problema também em uma lésbica se descobrir atraída (sexualmente ou romanticamente) por um homem – não tivesse a trama de Maura sido levada a mostrar questões ainda delicadas para gays e lésbicas, como se assumir perante a família e enfrentar o preconceito e ainda ter filhos.

Parte do público, LGBT principalmente, tem reclamado da reviravolta na trama, e de se propor uma ideia que leva a audiência a acreditar que a atração seja algo que se mude desta forma, favorecendo inclusive uma ideia de que uma cura gay seria possível, conforme dizem as críticas. Fora despedaçar de forma tão fácil uma união homoafetiva em detrimento da heterossexual.

Claro que deve ser prezada toda liberdade criativa do autor. Mas não deixa de ser um desserviço dado o poder educativo que uma novela tem no Brasil.

Até aqui, com a romantização de Ionan, Maura e um bebê, a novela vem reforçando o ideal de família tradicional “homem + mulher” alem da hipótese de “cura gay”.

Pior ainda é dar moral ao discurso do pai homofóbico de Maura, machista e preconceituoso, sempre contra a relação da filha. 

Não se trata portanto apenas de cercear a liberdade do autor, mas colocar a mão na consciência sobre o que apenas perpetua estigmas e preconceitos no país que mais mata LGBTs no mundo.

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Criador Põe na Roda, canal do youtube de humor e informação LGBT desde 2014, com mais de 100 milhões de visualizações e 800 mil inscritos. Autor do livro "Um Livro Pra Ser Entendido", que desmistifica questões do mundo gay e sobre ser LGBT para todos os públicos. Também foi roteirista de TV (Amor & Sexo, Adnight, CQC, Furo MTV) e colunista (Folha de S. Paulo).