A drag Kaká di Polly, um dos ícones da militância LGBT+ e que esteve presente na primeira Parada LGBT+ de São Paulo, em 1997 (sendo uma das responsáveis pela realização do evento, entenda abaixo), utilizou suas redes sociais para lamentar que Primeira Parada LGBT Virtual de SP, comemorada no último domingo (14), tenha ignorado os ativistas e personalidades históricas do movimento, em detrimento de youtubers e blogueiros, em alguns casos nem tão envolvidos com a pauta LGBT no restante do ano em suas redes.

Devido às medidas de combate ao coronavírus, a Parada deste ano foi comemorada de uma forma diferente. Não com a tradicional marcha na Avenida Paulista e sim em uma edição virtual, apresentada por youtubers e influencers. 

VÍDEO NOVO DO PÕE NA RODA:

Apesar de reconhecer a iniciativa criativa, Kaká não pode deixar de comentar indignada: “Cadê o meu convite? Cadê o convite de Salete Campari? O de Silvetty Montilla, Paulette Pink, Divina Núbia? Cadê a homenagem a Miss Biá, que foi a primeira a colocar tinta na cara e sair na rua, a levar coió de polícia?”

Kaká di Polly na primeira Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo

Foi por conta de Kaká inclusive que a primeira Parada LGBT aconteceu. Em seu desabafo, a estrela lembrou do momento histórico em que simulou um desmaio para distrair os policiais e parar o trânsito para que a 1° Parada do Orgulho LGBT+ conseguisse sair em 1997, quando a polícia havia chegado ao local para impedir a manifestação.

VEJA TAMBÉM:  Série de RuPaul, AJ and the Queen, é cancelada pela Netflix

“A militância, a verdadeira militância, aquela que a gente fez e faz, porque são 45 anos dando a minha cara a tapa, Silvetty Montilla são 35 anos dando a cara dela a tapa, em pé naquele trio durante anos. Onde foi parar o nosso nome? Quem lembrou de fazer uma homenagem a qualquer uma de nós?”, observou Kaká no vídeo.

“Eu, assim como muitos artistas da noite, aqueles que estiveram desde a primeira parada com poucas pessoas na Paulista, onde me joguei na rua para que a Parada pudesse prosseguir, quando era proibida pela polícia, se sentiram esquecidos, revoltados, desrespeitados e entristecidos com a ausência desses que, há anos, se dedicaram à Parada sem receber um tostão, apenas pela militância”, apontou a drag em um texto publicado no seu site.

VEJA TAMBÉM:  Drag queen famosa de Nova York morre de coronavírus; conheça sua história

A artista ainda criticou a escolha apenas por influencers com poucos anos de militância para apresentar o evento. “Fomos trocadas por meia dúzia de Youtubers com menos de 5 anos de carreira. Deixaram para trás artistas que realmente tiveram a ver com a luta, empenho e história da parada. Entendemos que é um evento virtual e que nisso os Youtubers tem seus valores sim, mas até então, eu mesma faço live 3 vezes por semana e num debate teria muito pra falar e argumentar, outras poderiam fazer shows de suas casas ou cantar”, argumentou.

Kaká acrescentou que “sabemos que pelos patrocinadores a escolha foi feita pelos Youtubers e seus números de seguidores, mas cabia à Associação ter alguém para não deixar cair no esquecimento uma luta nossa de 23 anos. O novo é sempre bem-vindo, mas a história jamais pode ser esquecida”.

VEJA TAMBÉM:  Vem ouvir "Apaga a Luz", novo hino de Gloria Groove!

“Enfim, sabemos que esse desabafo vai ser abafado, que não receberemos ao menos  um pedido de desculpas, mas novembro está aí, se Deus quiser estaremos livres de pandemia e, por amor à causa, por militância, nós, as ‘velhas esquecidas’ estaremos lá na Av. Paulista mostrando ao mundo mais uma vez, que temos Orgulho em ser LGBTQIA+”, afirmou a artista.

Outro portal LGBT que também lamentou a ausência de figuras e discussões históricas e que pavimentaram o caminho para que hoje exista influenciador ganhando publi em dia de Parada, se envolvendo ou não com a causa o restante do ano, foi o portal Guia Gay SP, que lamentou debates rasos que aconteceram na transmissão e ressaltou que não há nada errado em ter influenciadores digitais na Parada de SP, mas o problema é ficar refém somente deles.

Foto: Maurício Code/ Reprodução Vice