Há 10 anos estreava na televisão dos Estados Unidos o seriado “Glee”. Exibido em mais de 60 países, até 2015, no Brasil pela FOX, não demorou a fazer muito sucesso por aqui.

O primeiro episódio foi exibido no dia 19 de maio de 2009 e a história do fenômeno mundial se passa na fictícia William McKinley High School, em Lima, Ohio, e um grupo de estudantes entusiasmados e ambiciosos que integram o clube do coral (Glee) selecionado pelo professor de espanhol, Will Schuester.

No entanto, ele precisa manter o grupo e combater a treinadora Sue Sylvester que faz o inferno para acabar com as artes na escola. Assim, músicas de sucesso antigas e da época ilustram as aulas e os temas em debate.

Apesar de centrar-se em um romance hetero relativamente convencional entre Rachel Berry e Finn Hudson, Glee explorou relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo entre homens e mulheres, bem como relacionamentos inter-raciais.

Criado por Ryan Murphy, o seriado seguiu o modelo do High School Musical da Disney, mas apesar de ser esse clássico modelo de ensino médio americano, inaugurou uma era de maior inclusão para a televisão americana convencional.

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Pela primeira vez pudemos ver na TV a hostilidade contra gays afeminados e diferentes através da história de Kurt Hummel, interpretado por Chris Colfer. Kurt era tanto imperfeito quanto engraçado – sem que sua homossexualidade fosse motivo de toda piada. Mas ele era apenas uma parte do que fez Glee ser tão inovadora.

Glee foi parte de uma onda de mudança da percepção pública sobre a comunidade LGBT, criando personagens homossexuais, bissexuais e transgênero de maneira tão atenciosa e humana quanto qualquer outro, além de casais homossexuais por quais todos podiam torcer. Isso tudo antes mesmo do casamento entre pessoas do mesmo gênero ser legalizado nos Estados Unidos ou no Brasil.

Teatro e, especialmente, musicais já tem uma reputação ligeiramente gay , e com razão, muitos artistas LGBT foram parte de construir a Broadway e o cinema musical como conhecemos hoje , mas ao abraçar e naturalizar essa reputação de forma tão aberta, Glee abriu portas para uma revolução.

A fórmula de inclusividade e positividade de Glee era popular. Na era pré-Netflix, quando as temporadas de TV duravam mais de 20 episódios e precisavam atrair uma audiência semanal, eram assistidos por um pico de 10 milhões de espectadores por semana nos Estados Unidos. Seus primeiros seis álbuns, lançados como “volumes” de Glee: The Music, todos alcançaram a posição de número 1 na parada do Billboard Americana e foram certificados com platina tripla.

O legado musical de Glee é significativo. Os números músicias de cada episódio incluiram músicas de  Rihanna, Katy Perry, Adele, Britney Spears, Lady Gaga, Madonna e Queen, para citar algumas.

Assim como sua impressionante lista de estrelas convidadas, incluindo Gwyneth Paltrow, Olivia Newton-John, Ricky Martin, Adam Lambert e Neil Patrick-Harris. Músicas de rock como “Don’t Stop Believin” do Journey , que será para sempre a música mais icônica de Glee, foram revividas e apresentadas a uma nova geração, dando às músicas de rock tradicionalmente masculinas uma renovação pop.

Glee chegou na hora certa, quando artistas como Lady Gaga tinham começado a fazer sucesso. No final da primeira temporada, Gaga teve um  dedicado inteiramente à sua música a ela, intitulado “Theatricality”. Este é um título apropriado, dado que Gaga e Glee contribuíram para o surgimento de “crianças do teatro” ou “nerds musicais” dentro da cultura popular.

Mesmo com milhões assistindo a cada semana, uma série de álbuns incrivelmente populares e uma turnê de arena ao vivo esgotada, Glee abriu o caminho para o renascimento dos corais e do teatro musical. Murphy provou que o teatro musical pode ser imensamente lucrativo em várias plataformas na era dos smartphones.

E não parece que vamos deixar de fazer “crianças do teatro” famosas em breve. Afinal de contas, o aumento de jovens realizando covers no YouTube é outra marca do sucesso de Glee. É assim que muitos artistas de hoje, incluindo Justin Bieber e Shawn Mendes, foram descobertos pela primeira vez.

Como todos os programas de TV, Glee tinha suas falhas. Certamente deveria ter terminado depois de três ou quatro temporadas, em vez de se arrastar por seis. O ator Kevin McHale, que interpretava o usuário de cadeira de rodas Artie Abrams, também foi criticado por grupos de deficientes. Embora em vez de favorecer a gentileza unidimensional e simbólica, Artie tinha profundidade. Como muitos garotos adolescentes, ele era gentil, mas também, às vezes, um pouco idiota.

Também é difícil separar o Glee de eventos fora da televisão que quebraram a fachada positiva da séroe. Cory Monteith (Finn Hudson) uma das estrelas da série, morreu de overdose de drogas aos 31 anos de idade. E assim seu personagem teve que morrer também, em um episódio da quinta temporada, embora a decisão de não revelar uma causa de morte para Finn fosse divisiva. Monteith estava em um relacionamento com a também estrela Lea Michelle (Rachel Berry) imitando o romance da dupla na tela. Em 2015, Mark Salling, que interpretou o bad boy Noah “Puck” Puckerman, foi preso e acusado de posse de pornografia infantil. Salling se declarou culpado das acusações e se matou antes de começar a cumprir sua pena na prisão.

Mas, por mais perturbadores que sejam esses eventos fora da tela, eles não tornam o programa sem sentido. A popularidade de um show tão gay quanto Glee pode não parecer revolucionária agora, mas vale lembrar que, quando foi ao ar pela primeira vez em 2009, apenas 36% dos americanos apoiavam o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Mesmo entre os millennials – o público-alvo de Glee – apenas 51% eram a favor. No entanto, mesmo neste momento, a interpretação de Daren Criss para “Teenage Dream”, de Katy Perry – cantada por Blaine como uma serenata para seu namorado Kurt – alcançou as maiores vendas nos Estados Unidos na primeira semana do que qualquer música Glee.

E isso sempre será o legado duradouro de Glee. Ele uniu perfeitamente as narrativas gays em um programa de TV popular e até teve a coragem de escalar um ator gay (Colfer) em um papel gay. Uma década depois, isso ainda é extremamente raro, tanto que Daren Criss – que fez o assassino Andrew Cunanan na série “American Crime History: O Assassinato de Gianni Versace”, de Ryan Murphy – prometeu parar de interpretar personagens LGBT  para dar uma chance a mais atores gays.

Como a maioria das culturas criadas por pessoas queer, Glee raramente recebe o crédito que merece por influenciar até hoje as séries de TV ou da Netflix.

Demonstrar o impacto causado pela obra na televisão como um todo é simples. Usando uma emissora conhecida por suas séries para o público jovem como exemplo: em 2009, a CW estreou The Vampire Diaries com o total de uma personagem negra em seu elenco regular, a Bonnie interpretada por Kat Graham.

Em um mundo pós Glee, a série de maior sucesso da emissora, Riverdale, estreou em 2017 com personagens latinos, negros, asiáticos e gays em seu elenco fixo. E não estamos sequer falando de obras celebradas por sua inclusão, que a emissora se empenhou em produzir nos últimos anos, como Jane The Virgin, protagonizada por latinos e inspirada em novelas mexicanas, ou Crazy Ex-Girlfriend, que deve muito a Glee não só pela diversidade de histórias e personagens, mas simplesmente por poder existir na televisão como uma comédia musical.

É inegável que a série fez parte do caminho para a mudança da visão da mídia sobre “o outro” e, consequentemente, da visão do público também.

Para os jovens  gays, héteros e tudo mais, pode ter sido a primeira vez que viram um romance gay na tela. Para aqueles que eram diferentes no ensino médio, sua mensagem era clara: “Continue aguentando, porque você sabe que vamos sobreviver, vamos conseguir.”