A série de maior sucesso da TV americana nos anos 90, Friends, teve todas suas temporadas colocadas a disposição do público na Netflix recentemente.

Muitos fãs e saudosos do show comemoraram a decisão, até que recentemente na Internet começaram a surgir algumas problematizações sobre piadas corriqueiras na série, mas que eram absolutamente normais nos anos 90, e hoje já não são tão facilmente aceitas.

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Confira alguns dos momentos da série em que internautas – principalmente através de posts no Twitter e Facebook – questionaram se o que tinha no roteiro da série era de fato só humor ou preconceito mesmo:

Internautas reclamaram pelo fato de o pai de Chandler ser transgênero, e na relação deles, o filho simplesmente não respeitar o gênero dele, sempre o chamando no masculino e pelo nome de batismo, Charles, ao invés do nome com o qual ele se sente confortável em ser chamado: Helena Handsbasket. Chandler também passa mal intencionalmente quando os amigos decidem ir assistir um show de seu pai em uma boate, não aceitando sua maneira de ser.

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As pessoas também reclamaram muito de Ross que acha ruim quando em um episódio, seu filho Ben adora brincar de boneca. Ross ainda acusa o rapaz que faz babysitter de seu filho, contratado por Rachel, de ser gay e “influenciar” o seu filho. Um internauta comentou sobre o momento: “Estava eu assistindo Friends e o episódio em que Ross tem um babysitter homem é tão grosseiro, homofóbico e problematico! Odiei!”.  Um outro disse: “Estou na temporada 8 de Friends e preciso dizer que são “péssimos amigos! A série tem um monte de piadas homofóbicas e misóginas!”. Outros dois internautas afirmaram: “Qualquer episódio de Friends vem com piadinhas homofóbicas, os anos 90 eram muito loucos!” e “Re-assistindo Friends na Netflix é legal, mas MEU DEUS, Ross Gellar era homofóbico e misógino e a gente nem percebia!”.

Outro episódio bastante criticado da série foi um em que os “amigos” zoam Chandlerpor ser gay. São minutos incontáveis de piadas estereotipadas e homofóbicas.

Outra crítica recorrente dos internautas é a falta de diversidade entre o elenco composto apenas por brancos cisgêneros e pertencentes a uma mesma classe social, como aconteceu com o Oscar 2 anos atrás e que já mudou muito quanto a diversidade em suas indicações desde então.

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Mesmo com toda problematização, fãs estão defendendo a série – e não sem razão – ao afirmar que muitas das piadas de Friends, também aconteciam em qualquer outra série dos anos 90 normalmente. Homofobia e transfobia não eram questões com as quais as pessoas se preocupavam na época e sequer existia algum consenso sobre isso tudo.

Vale lembrar que Friends também passava valores incríveis e mensagens muito positivas sobre a lealdade, amizade, incluindo até mesmo casamentos homoafetivos como rolou entre a ex-esposa de Ross e sua namorada, por exemplo. Isso, é claro, desconsiderando que Ross e Rachel tivessem uma conduta ciumenta, senão homofóbica com o casal em alguns momentos. De qualquer forma, é louvável para a época que uma série de tanto sucesso trouxesse um assunto que era tão tabú na época a tona. Isso sim deve ser levado em consideração, principalmente pela década em que foi exibido.

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Na época inclusive, o episódio foi proibido de passar na TV em alguns estados americanos só por conter um casamento entre duas lésbicas, o que ainda estava longe de se tornar uma realidade relativamente comum como é hoje. Hoje, proibir um episódio desse de ser veiculado, seria alvo de protestos e dificilmente o veto conseguiria ser realizado.

Mas afinal, tudo isso mostra que Friends seria uma série homofóbica, transfóbica ou preconceituosa? Não exatamente. Era o retrato do pensamento comum de uma época. Este sim era homofóbico, misógino e transfóbico e a gente nem percebia. Eu mesmo assistia Friends e me lembro de muito mais referências positivas do que negativas. Mas de fato, toda essa problematização mostra que o mundo já mudou e muito nos últimos 20 anos. Felizmente.

Com a Internet e redes sociais, minorias ganharam voz, respeito e podem ter sua dignidade mais do que nunca, se não garantida sempre, ao menos reclamada e ouvida. Muito que bem! Que a evolução da espécie humana assim continue.


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Criador Põe na Roda, canal do youtube de humor e informação LGBT desde 2014, com mais de 150 milhões de visualizações e 1 milhão de inscritos. Autor do livro "Um Livro Pra Ser Entendido", que desmistifica questões do mundo gay e sobre ser LGBT para todos os públicos. Também foi roteirista de TV (Amor & Sexo, Adnight, CQC, Furo MTV) e colunista (Folha de S. Paulo).