De início, é difícil se localizar em “Espírito Perdido“. Logo nas primeiras páginas somos arremessados em uma aventura onde não sabemos o que está acontecendo. Quem são aquelas pessoas? Qual é daquela garota estranha que parece que roubou uma pedra mágica? Por que tá todo mundo fugindo?

Estranho, tive que ler e reler algumas vezes o primeiro capítulo pra me achar e confesso que mesmo assim não me achei naquele meio frenético. Então resolvi seguir a história com a esperança de me encontrar em alguma página ou outra. E agora, fico feliz em dizer que fiz a escolha certa.

Porque, afinal, sem querer dar muitos spoilers. O livro fala muito dessa sensação. Desse sentimento que a gente tem de vez em quando de se sentir deslocado, sozinho, perdido em um mundo que ninguém te entende e que você também não entende todo mundo.

Irônico e muito bem pensado que o autor, P.J. Maia, provoque no leitor essa sensação logo nas primeiras páginas.

E dá muito bem pra entender o motivo depois de uma conversa com ele sobre a construção dessa narrativa.

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P.J. Maia é de Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Uma cidade com pouco mais de 700 mil habitantes. Ele tinha acabado de voltar pro Brasil quando começou as primeiras páginas do que viria a se tornar seu primeiro livro.

A primeira versão do livro levou um ano e meio para ficar pronta e ela tinha mil páginas. Eu comecei a escrever a pedido de uma amiga. Eu tinha voltado dos EUA, onde eu morei por 4 anos, estava morando no Rio de Janeiro e tentando retomar a carreira. Estava meio sozinho, deslocado, confuso e não tava entendendo muito bem essa nova dinâmica. Acho que um choque cultural mesmo por ter ficado esse tempo fora“, disse ele que começou escrevendo cinco páginas por dia e enviando para a amiga, “Passado dois, três meses eu já tinha bastante coisa“, completa.

(P.J. Maia)

Espírito Perdido” é um exercício de pensar como era o mundo há 200 mil anos antes de Cristo. Uma Terra onde existe magia e deuses imortais. E é nesse mundo que a gente conhece nossa protagonista, Keana, criada em um reino chamado “Divagar” onde deuses desfrutam do melhor de suas vidas imortais, ela se vê desconectada dessa realidade e assim uma jornada se inicia a fim de se encaixar e encontrar seu lugar.

Nessa jornada, somos inseridos não só a uma aventura anacrônica e mágica, como também temos a chance de refletir com temas como isolamento social, privacidade, privilégios e, claro, questões LGBTs.

Porque sim. Temos personagens LGBTs na trama.

E não só isso. Personagens LGBTs que, diferente de outras narrativas, se encaixam perfeitamente a história. Com conflitos próprios e que não ficam dando voltas na própria sexualidade, os personagens são abordados e construídos da forma como tem que ser: como qualquer outro elemento da trama.

Os personagens que disseram pra mim quem eles eram. Eu não pensei esse vai ser assim e esse vai ser assado pra ficar plural.Eu já tenho uma vivência plural. O mundo a qual eu me cerco é um mundo diverso. Então, não cabia pra mim que, no momento de criação que é um momento de catarse e alegria, que eu fosse criar um mundo diferente“, conta P.J. Maia quando questionado se esses personagens tinham sido inseridos pra abordar diversidade ou se já foram criados daquela forma.

Assumidamente gay e com um livro com personagens LGBTs, era impossível não perguntar sobre o que aconteceu na Bienal do Rio esse ano e se isso de alguma forma o desmotivou em escrever histórias que contenham esses personagens:

De forma alguma me desmotivou porque acredito muito nessa ideia de que quem cala consente. Você tem forças de estado tentando suprimir e reprimir um pensamento. Se eu me calo, eu tô consentido com essa ideia. Se estão tentando calar as vozes LGBTs é hora das vozes LGBTs se fazerem ouvir. A gente não pode se calar não“, respondeu ele.

E não vão mesmo, já que a continuação de “Espírito Perdido” já está sendo produzida. “É um outro processo, não sou mais um autor de primeira viagem“, conta ele.

Com pouco mais de 400 páginas, “Espírito Perdido” foi escrito inteiramente em inglês e lançado primeiramente nos Estados Unidos no começo do ano.

A versão em português, lançada através da editora Labrador, já pode ser encontrada nas principais livrarias do Brasil e é indicada pra qualquer um que goste de boas aventuras com personagens diversos e cativantes.