O atleta medalhista destaque da ginástica olímpica brasileira, Diego Hypolito, falou pela primeira vez abertamente sobre ser gay em entrevista ao portal UOL.

Sobre o motivo que o levou a evitar o assunto por tanto tempo, estão vários. Assim como muitos LGBTs, Diego vem de uma criação tradicional: “Fui criado na igreja, tenho uma tatuagem de Jesus crucificado no braço, até hoje frequento cultos da Bola de Neve… Eu tinha vergonha porque na minha cabeça ser gay era ser um demônio, um ser amaldiçoado que vive em pecado. Quando eu tinha uns dez anos, um treinador foi dizer para a minha mãe que ela devia mudar minha educação para que eu não virasse gay”, revelou.

A resistência em contar à própria família – que até alguns anos atrás não sabia que ele era gay – se dava por encarar sua própria orientação sexual como um peso: “Tinha uma origem humilde, do interior e religiosa. Eles nunca entenderiam. A gente passava por tanta dificuldade em casa… nem sempre tinha o que comer, chegamos a ficar meses sem energia elétrica. Como é que eu ia levar mais um problema para eles?”

Na entrevista o medalhista também revelou que foi só em 2014 que contou com todas as letras para sua mãe. Na época, foi um namorado que o pediu pra que pelo menos a família soubesse deles: “Estava me preparando para o Mundial da China quando tomei coragem para contar para ela. Não tinha coragem de falar por telefone, então, de novo, escrevi uma mensagem. Disse que a amava muito, que esperava que isso não fosse mudar a nossa relação, porque eu continuaria a amando da mesma maneira. Eu era gay. E não um demônio”.

Outro ponto em comum com muitos LGBTs foi o medo de sofrer rejeição dos colegas de escola e também no trabalho: “Por mais que todo mundo tenha a impressão de que tem muito gay na ginástica, não tem. Todo mundo me zoava, zombava do meu jeito”. No ano passado inclusive, Diego Hypolito revelou todo bullying e humilhações sofridas quando era mais novo e treinava: “Já me prenderam em um equipamento de treino apelidado de “caixão da morte”, já me fizeram segurar uma pilha com o ânus e já me deixaram pelado, junto com outros dois atletas, para escrever no nosso peito a frase “Eu”, “sou”, “gay”. Uma palavra em cada um para nos humilhar”.

VÍDEO NOVO DO PÕE NA RODA:

E foi desta maneira, escondendo seus problemas e sua vida pessoal de seus entes queridos, que Diego focou toda sua energia no esporte. “A minha felicidade era a ginástica, então se eu não pudesse ser completo na minha vida pessoal, nem tinha tanto problema. Eu ia continuar a esconder a minha sexualidade para manter vivas as minhas aspirações no esporte. E deu certo, né? Uma medalha de prata em Olimpíada. Dois títulos e outras três medalhas em Mundiais. Mais 69 em Copas do Mundo”, lembrou ele citando suas conquistas.

Mas diferente de muitos LGBTs, devido a exposição e tempo em que ficou no armário, foi apenas recentemente que Diego se sentiu a vontade para frequentar uma festa gay, como disse à reportagem: “Aos 32 anos, fui pela primeira vez de cara limpa, sem disfarce, sem ter vergonha de ser quem eu sou, de viver o que eu quero viver. Para mim é uma libertação. Foi a primeira vez que realmente me diverti numa festa gay!”. 

Ainda que nos últimos anos, todas as pessoas mais próximas de Diego já soubessem que ele é gay, e a terapia tenha ajudado o rapaz a chegar neste ponto bem resolvido e tranquilo consigo mesmo, publicamente o atleta ainda não tinha falado sobre o assunto. Inclusive, anos atrás, quando um repórter chegou a perguntá-lo claramente, ele simplesmente negou. “Eu travei, mas respondi que não. Aquilo para mim foi péssimo. Desde então passei a pedir para meu assessor de imprensa evitar esse tipo de pergunta em contato com jornalistas”.

Mas por que contar agora? A atitude não vem em vão e tem um propósito nobre: “Foram anos e muita terapia, além da proximidade com outras pessoas gays, para que eu chegasse nesse ponto de ter a coragem de falar abertamente sobre a minha sexualidade. Acho que meu exemplo pode fazer com que muitos garotos que hoje estão sofrendo deixem de sofrer. Muitos não se aceitam como são ou não são aceitos pela família e têm pensamentos suicidas por não conseguirem corresponder às expectativas dos outros”, disse.

Seu intuito agora é livrar outras pessoas LGBTs de passarem pelo que ele passou: “Quero que as pessoas saibam que eu sou gay e que eu não tenho vergonha disso. E não é porque eu sou que outras pessoas vão querer ser. Isso não tem nada a ver. Já vivi muitos anos pensando no julgamento que os outros fariam sobre mim. Hoje só aceito ser julgado por Deus”.

Confira a entrevista completa no UOL.

Avatar
Criador Põe na Roda, canal do youtube de humor e informação LGBT desde 2014, com mais de 100 milhões de visualizações e 800 mil inscritos. Autor do livro "Um Livro Pra Ser Entendido", que desmistifica questões do mundo gay e sobre ser LGBT para todos os públicos. Também foi roteirista de TV (Amor & Sexo, Adnight, CQC, Furo MTV) e colunista (Folha de S. Paulo).