O pastor britânico Stanley Underhill, do alto de seus 91 anos, falou à BBC sobre ter se revelado gay publicamente na sua idade. Ele atualmente lança uma biografia em que fala aliviado pela primeira vez abertamente sobre o assunto.

Em uma longa entrevista, o religioso assumiu que sempre soube que era diferente, mas nunca encontrou apoio e se manteve no armário por quase toda sua vida.

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Vale lembrar que, durante maior parte da sua vida, a homossexualidade ainda era crime no Reino Unido. Foi só em 1967 que a Inglaterra e o País de Gales descriminalizaram relações homoafetivas.

“Não contei ao meu irmão até 2018, quando lancei meu livro. O pior é que, quando ele soube, nem fez diferença! Queria ter contado antes a ele, minha família, mas sempre tive medo de como receberiam essa notícia”, disse.

Em sua biografia, “Coming out of the Black Country”, ele conta que cresceu em um mundo hostil, fanático, ignorante e cheio de preconceitos, pobreza e discriminações.

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Desde criança Stanley percebeu que olhava para o oposto do que seus amigos meninos. Foi na natação que ele se deu conta de que o corpo masculino era o que lhe atraía: “A visão do corpo (do professor de natação) mergulhando era excitante”, confessa o pastor em sua autobiografia.

Stanley Underhill na infância
Underhill nasceu quando ser gay ainda era crime.

Em 1918, após ter tentado namorar mulheres, ele percebeu que não teria jeito, e ele seria então o que ele mesmo considerava ser “uma aberração para Deus”. E foi assim que por muitos anos escondeu sua sexualidade: “Conscientemente reprimi e neguei minha homossexualidade para mim mesmo, para os outros e para Deus”, diz em seu livro.

Stanley chegou a tentar um relacionamento com Alex, sua primeira grande paixão. Segundo a reportagem da BBC,  após a Segunda Guerra Mundial, ele foi trabalhar no HMS Queen — porta-aviões que transportava mulheres que tinham se casado com soldados americanos. Uma das passageiras caiu durante a viagem para os EUA e quebrou a perna. Ele foi chamado para atendê-la, mas desmaiou ao ver tanto sangue. Foi aí que um homem chamado Alex foi encarregado de cuidar deles.

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“Quando abri os olhos, encontrei-o (Alex) olhando para mim. Ele estava me dizendo algo. Não ouvi o que ele me disse. Mas nossos olhares se encontraram, e eu me apaixonei por ele.”

Apaixonados, ambos até tentaram viver o relacionamento, mas o pai de Alex, ao descobrir a história em 1948, quando o filho já trabalhava com ele como contador, o expulsou de casa, do emprego e do convívio familiar.

Ao morarem juntos, tudo poderia ter dado certo… Não fosse por ambos lerem as Escrituras e acreditarem piamente que estavam errados em viver aquele relacionamento: “Nós dois começamos a ler as Escrituras. Foi aí que ele chegou à conclusão que se relacionar comigo era algo perverso e errado.”

Alex foi namorar uma mulher e se casou. À Stanley restou a depressão, a sensação de estar perdido e até tentativas de terapias de cura-gay, que obviamente nunca funcionaram. Foi aí que ele decidiu entrar para a Igreja para focar sua vida em Jesus e “tentar libertar o demônio que acreditava viver em si”.

Stanley Underhill na Charterhouse em Londres
“Finalmente livre”, declarou o pastor em seu livro.

Sobre a posição da Igreja em relação aos homossexuais, Stanley é categórico ao afirmar que a instituição deveria acolhê-los: “A igreja perdeu uma grande oportunidade de mostrar compaixão e compreensão como Cristo em relação aos gays”, reflete em seu livro.

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Ele hoje vive em um lar de idosos em Londres e se diz feliz com as mudanças nas atitudes sociais em relação aos homossexuais, ainda que se afirme ressentido e com cicatrizes:  “Lamento muito ter sido privado de uma vida sexual normal, algo que me causou muita frustração.”

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Criador Põe na Roda, canal do youtube de humor e informação LGBT desde 2014, com mais de 150 milhões de visualizações e 1 milhão de inscritos. Autor do livro "Um Livro Pra Ser Entendido", que desmistifica questões do mundo gay e sobre ser LGBT para todos os públicos. Também foi roteirista de TV (Amor & Sexo, Adnight, CQC, Furo MTV) e colunista (Folha de S. Paulo).