Mahdia Lynn é uma mulher trans 31 anos que vive em Chicago nos Estados Unidos, onde, em um edifício de escritórios, criou um espaço com tapetes coloridos pelo chão e todo ornamento típica destinado a receber LGBTs muçulmanos. Sua história foi originalmente contada em uma reportagem do jornal Folha de São Paulo.

Se trata de uma mesquita inclusiva com algumas diferenças das tradicionais. Nela, mulheres não apenas participam dos rituais como podem assumir papeis de liderança.

Desde 2016, o espaço permite que muçulmanos LGBT possam ser acolhidos e exerçam sua fé sem a discriminação ou violência as quais seriam submetidos caso procurassem uma mesquita ou comunidades islâmicas convencionais.

“O Islã é muito importante para deixar qualquer um pra trás. Todos tem direito a expressar a sua fé. Negar ao indivíduo este direito é uma crueldade”, disse ela. E completou: “Queremos um Islã que funcione para todos”.

Mahdia se revelou uma mulher trans aos 18 anos quando também abraçou o feminismo e a causa dos direitos LGBTs. Ela sentiu na pele o preconceito e dificuldade que muçulmanos LGBTs passam: “Ser uma mulher trans torna você muito vulnerável a violências cotidianas”.

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Curiosamente, ela diz que o alcoorão foi o que mudou a sua vida: “A leitura melhorou tudo. Me identifiquei e parecia que já sabia tudo aquilo. Comecei a seguir a rotina de orações e minha vida mudou”.

Por dois anos ela tentou, vivendo ainda no gênero masculino, ir assistir a cultos em mesquita. Depois de um tempo, e sem conseguir arcar mais com o próprio armário onde se colocava, ela decidiu aproveitar da cobertura de todo corpo e cabelo pelas muçulmanas para frequentar os cultos no gênero em que entende pertencer.

“Os espaços femininos no Islã foram essenciais a mim. Pertencer a eles precisa ser uma opção. Quando o isolamento é imposto por homens, é algo inaceitável”.

Foi então que ela começou a questionar as imposições masculinas e o modelo de liderança das mesquitas tradicionais, sempre colocando homens como privilegiados e as mulheres em uma hierarquia inferior.

Com as redes sociais ela descobriu não ser a única, mas existirem vários muçulmanos LGBT vivendo no armário. Foi aí que a ficha caiu: ela não estava sozinha.

Já que seria muito difícil convencer as mesquitas existentes a aceitarem LGBTs muçulmanos, ela se aliou ao Transgender Musil Support Network, uma rede de apoio LGBT muçulmana e criou a própria.

“Senti que era minha responsabilidade tornar o Islã acessível e seguro para todos que neles depositam sua fé”, disse ela.

Claro que a iniciativa foi alvo de ódio por conservadores muçulmanos, mas ao mesmo tempo, também conquistou admiração de lideranças mais modernas da comunidade islâmica norte-americana.

“Espero que um dia isso não seja mais necessário”, afirma ela sobre o espaço que segrega os LGBTs muçulmanos e ainda é uma iniciativa rara.

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Criador Põe na Roda, canal do youtube de humor e informação LGBT desde 2014, com mais de 100 milhões de visualizações e 800 mil inscritos. Autor do livro "Um Livro Pra Ser Entendido", que desmistifica questões do mundo gay e sobre ser LGBT para todos os públicos. Também foi roteirista de TV (Amor & Sexo, Adnight, CQC, Furo MTV) e colunista (Folha de S. Paulo).