Sob o governo de Vladimir Putin, autoridades da Rússia declararam que gays que tiverem filhos através de barriga de aluguel no país poderão ser presos por crime de “tráfico de bebês”.

De acordo com o jornal britânico The Independent, a mídia estatal russa relatou que uma fonte do Comitê Investigativo do país comparou mãe de aluguel a tráfico de bebês e insistiu que era um crime para homens com “orientação não tradicional” usar seu esperma para fertilização in vitro.

Vale lembrar que o procedimento de barriga de aluguel é plenamente permitido na Rússia. Curiosamente (e homofobicamente) as autoridades não falaram nada sobre casais héteros inférteis que usem o mesmo procedimento. Estes continuam liberados.

“Planejamos prender vários suspeitos, homens solteiros e cidadãos russos, que usaram mães de aluguel para dar à luz aos seus filhos”, acrescentou a fonte. Oficialmente o governo não confirmou o plano, ainda pelo menos.

Ao todo, sete pessoas já foram presas na Rússia por acusações de tráfico de bebês depois que um bebê de uma mulher que fazia barriga de aluguel morreu em janeiro.

Seu bebê foi encontrado em um apartamento em Moscou com três outros filhos, todos concebidos por uma mãe substituta, e duas babás que ajudavam a tomar conta.

As crianças estavam sendo cuidadas pelas babás enquanto seus pais organizavam a papelada para levá-las pra casa.

Autoridades russas decidiram que o bebê morreu “por negligência” e que o arranjo de barriga de aluguel constituía “tráfico de bebês”. Equipe médica e advogados envolvidos no caso foram presos.

Família homoafetiva que vive na Rússia corre risco de ser presa (Foto: Reprodução)
Família homoafetiva que vive na Rússia corre risco de ser presa (Foto: Reprodução)

O advogado Igor Trunov, que está representando os pais das crianças, disse ao The Independent: “Faça o que fizer, você não deve acreditar nos investigadores do estado quando eles dizem que estão agindo em prol do bem-estar infantil. Eles decidiram enviar três crianças de onze meses para uma instituição psiquiátrica infantil.”

Os pais dos bebês estão processando o governo da Rússia por “sequestrar” seus filhos, que são legalmente reconhecidos. Mas os investigadores do governo estão agora tentando de toda forma ligar famílias homoafetivas ao crime de tráfico de bebês, em mais uma clara ação homofóbica do governo do país.

“Eles querem conectar o tráfico de bebês à ideia de orientação sexual, sabendo como isso repercute no público em geral. Eles entendem que ninguém vai defender os gays”, afirmou uma fonte ao jornal.

O presidente russo, Vladimir Putin, tem sistematicamente mirado na comunidade LGBT + do país, incitando o ódio entre seus apoiadores mais leais, membros da Igreja Ortodoxa Russa, e deixando grupos de direitos LGBT+ de fora da Rússia alarmados com a forma como ele está ataca pessoas LGBTs.

Em 2013, Putin introduziu na Rússia a infame lei “anti-propaganda gay”, que proíbe a chamada “propaganda de relações sexuais não tradicionais” entre menores. Pela medida, é proibido falar publicamente sobre homossexualidade e carregar bandeira LGBT ou qualquer acessório que remeta a diversidade. Pra se ter ideia, no país, uma sorveteria chegou a ser acusada de apologia a homossexualidade pelas cores de sua fachada.

Ativistas de direitos humanos são categóricos ao afirmar que a lei foi amplamente explorada no país simplesmente pra restringir a liberdade de expressão de pessoas LGBT+.

Assista no vídeo abaixo a entrevista com um gay russo contando como é ser gay na Rússia:

Criador Põe na Roda, canal do youtube de humor e informação LGBT desde 2014, com mais de 150 milhões de visualizações e 1 milhão de inscritos. Autor do livro "Um Livro Pra Ser Entendido", que desmistifica questões do mundo gay e sobre ser LGBT para todos os públicos. Também foi roteirista de TV (Amor & Sexo, Adnight, CQC, Furo MTV) e colunista (Folha de S. Paulo).