A dupla sertaneja formada por Pedro Motta e Henrique ganhou fama na última semana, mas por uma péssima razão: transfobia.

Eles lançaram a nova faixa “Lili” na Internet e foram massacrados por tanta ignorância e preconceito contidos na letra da música, que fala sobre um homem que foi “enganado” por uma travesti.

Além de tratar travesti no masculino durante a letra, a canção fomenta o ignorante imaginário que se faz de que travestis e mulheres trans “enganam” homens cisgêneros heterossexuais para ficarem com eles.

“Chorando arrasado, acabei de descobrir que eu fui enganado!”, “Só que ela não tinha o que mulher tem”, “Ô Lili, ô Lili, por que você mentiu pra mim?”, diz a inacreditável e transfóbica letra em 2020. Lembrando aqui que existem homens com vagina e existem mulheres com pênis.

“Uma dupla sertaneja lançou uma música totalmente transfobica (a letra abaixo). Me choca saber que permitam uma música como essa em uma das maiores plataformas de música, o Spotify”, postou a ativista travesti Alina Durso em seu Twitter.

Talvez Pedro Motta e Henrique não saibam, mas vivemos em um país onde LGBTfobia é crime. E uma letra que apenas fomenta mais ódio contra as travestis e mulheres, que as trata no masculino e ainda faz chacota com elas, é um crime.

Travestis e mulheres trans são mortas em crimes de ódio e tem expectativa de vida de 35 anos no Brasil. É com o imaginário e consciência de quem mata pessoas trans que este tipo de música colabora. Não adianta achar que é “brincadeira” ou “zoeira”.

Após a péssima repercussão da música, a dupla veio a público pedir desculpas e disse que “as pessoas estão mal interpretando a música.

Após péssima repercussão, Pedro Motta e Henrique pedem desculpas em vídeo. (Foto: Reprodução / Facebook)
Após péssima repercussão, Pedro Motta e Henrique pedem desculpas em vídeo. (Foto: Reprodução / Facebook)

“Estamos aqui pra esclarecer uma coisa. Estão nos chamando de homofóbicos [sic]. Gente, de forma alguma! Nunca vocês ouviram que Pedro Motta e Henrique é [sic] homofóbico, Pedro Motta e Henrique está [sic] zoando a pessoa”, começou Pedro.

“Pelo contrário: a gente tem muitos amigos que estão nos apoiando na música. Agradecer a eles”, completou Henrique. “Só que eles estão com medo de expor, de ser bombardeado [sic] que nem a gente está sendo bombardeado. Gente falando que tem nojo da dupla. De forma alguma. A gente não está aqui pra menosprezar a imagem de vocês. A gente fala que o amor da nossa vida é um travesti, né, parceiro, e não sabíamos. Ou é uma travesti, como vocês estão falando”, ainda acrescentou Pedro.

“A gente pede desculpa a todos que estão nos interpretando mal. Sei que vai ter muita crítica nesse vídeo mas, de forma alguma a gente veio pra menosprezar a imagem de vocês”.

Vale lembrar aqui Pedro, “não é como estamos falando”, é como É. Travesti é uma identidade feminina e chamar no masculino é uma ofensa. Não é uma “opção” ou “uma novidade” chamar no feminino. E não, ninguém está “mal interpretando”, estamos apenas interpretando exatamente o que vocês passam na letra transfóbica da música. Caberia além das desculpas a vocês, apenas aprender, ouvir e entender que é errado o que fizeram pois desrespeitam e ferem a dignidade de outras existências.

Assista abaixo ao pedido de desculpas da dupla:

Criador Põe na Roda, canal do youtube de humor e informação LGBT desde 2014, com mais de 150 milhões de visualizações e 1 milhão de inscritos. Autor do livro "Um Livro Pra Ser Entendido", que desmistifica questões do mundo gay e sobre ser LGBT para todos os públicos. Também foi roteirista de TV (Amor & Sexo, Adnight, CQC, Furo MTV) e colunista (Folha de S. Paulo).