No último domingo (24), Lua Guerreiro, mulher trans de 24 anos, foi espancada na rua em Niterói. Quando estava a caminho de sua casa, a jovem foi golpeada na cabeça por um grupo de transfóbicos.

Desde que Lua iniciou a transição de gênero em 2015, ela deixa o seu cabelo crescer e diz que este foi um marco no processo, além do nome social.

Porém, rasparam-lhe nacos de cabelo no Hospital Azevedo Lima depois dela ter sido espancada na cabeça.  Depois disso, seu nome social ainda foi desprezado pelos policiais que a atenderam na delegacia quando tentava prestar queixa da agressão. Segundo ela, o policiais recusaram-se a chamá-la de Lua, usando seu nome de batismo.

‘São dois marcos da minha transição: o cabelo e o nome. E tudo isso foi desrespeitado. Ainda não quis olhar o quanto rasparam, não sei se quero ver. Saí do hospital e fui para a polícia e, lá, o nome que eu uso foi ignorado, mesmo eu dizendo que era meu direito. Foi uma experiência terrível”, disse ao Jornal GLOBO. Ela acabou desistindo de registrar a queixa na 76ª Delegacia da Polícia Civil de Niterói.

Na tarde de ontem (27), Lua foi à Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância, na Lapa, para finalmente registrar a ocorrência. Ela foi acompanhada de testemunhas e de uma advogada que viu seu relato na internet. Lua contou que foi agredida após pedir um isqueiro a um vendedor de uma barraca na boêmia praça Cantareira, no bairro de São Domingos. Eram mais de 23h, e as agressões verbais, segundo Lua, terminaram em ataques físicos.

VÍDEO NOVO DO PÕE NA RODA:

‘’Para ser sincera, não sei quanto tempo fiquei apanhando, não sei quantos homens eram. Eles se revezavam para me bater. Eu levantava, eles me davam rasteira por trás, e eu caía de novo. Fiquei desorientada, não tenho noção de como tudo aconteceu. Tinha sangue da cabeça aos pés’’, contou ela.

Lua desabafou em um vídeo gravado por uma amiga – quando estava a caminho do Hospital Azevedo Lima – e também contou que foi alvo de deboche pelos enfermeiros que a receberam.

‘’Faziam piadas sobre mim, me tratavam pelo outro gênero e acabaram até discutindo com minha amiga que criticou a falta de profissionalismo (da equipe de enfermagem). Eu levei pontos na cabeça porque bati a cabeça várias vezes, e não me fizeram um raio-x. Não sei se isso é normal, sabe? ’’ , questiona Lua.

“ O tratamento já vinha sendo desagradável, meus agressores estavam lá sorrindo, à vontade. Mas tudo piorou quando o policial pegou meu RG e viu que meu nome no documento era outro. Aí ele ficou transtornado. Eu expliquei que era meu direito usar o nome social e que os documentos oficiais devem trazer o nome de registro com o nome social ao lado, mas ele se recusava a ouvir. Depois disso, me colocaram numa espera incessante. Os policiais ficavam passando, e eu ali toda machucada, dolorida”, desabafa a jovem.

Segundo Lua, quando ela foi até a delegacia, eram mais de 2h de domingo para segunda, e os policiais assistiam à televisão (“Ironicamente, viam um programa sobre violência de gênero”, comenta). Ela teria questionado o motivo da espera e relata ter ouvido como resposta a frase: “Estamos ocupados”.

‘Eu disse a eles: ‘Estou cansada, estou com dor’. E me falaram que a previsão de atendimento era de mais duas horas. Então desisti. Depois ouvi dizer que é uma tática muito comum usada pelos policiais para desencorajar o registro da queixa. Parece que eles costumam fazer isso para desestimular a denúncia mesmo’, afirmou.

A 76ª Delegacia de Polícia de Niterói não comentou as acusações de transfobia e informou o seguinte: “os agentes de plantão solicitaram a vítima que aguardasse atendimento, uma vez que todos os policiais estavam realizando outros registros naquele momento. No entanto, ela optou por ir embora informando que retornaria depois para registrar o fato”.

A Comissão de Direitos Humanos, da Criança e do Adolescente da Câmara Municipal de Niterói informou que vem oferecendo à Lua “apoio jurídico para a devida identificação e responsabilização dos autores desse ato covarde de barbárie”.O vereador Renatinho, Presidente da comissão, lembrou que “o Brasil é o país onde mais trans morrem assassinadas no mundo”, referindo-se a dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), segundo os quais 163 pessoas trans foram assassinadas no país em 2018.

Assista abaixo ao desabafo de Lua na íntegra:

Maikon Stefan
Amante do teatro, tv e de Harry Potter, formado em Técnico em Administração e Bacharel em Ciência e Tecnologia (UNIFESP-SJC). Atualmente cursa Engenharia de Materiais (UNIFESP-SJC). Também foi Presidente da Empresa Júnior (Ectm Jr). "Me chama pra causar que eu vou".