A autora de Harry Potter, JK Rowling, devolveu o prêmio Ripple of Hope recebido pela ONG Robert F. Kennedy de Direitos Humanos Pela Justiça Social, se defendendo contra acusações de transfobia depois que Kerry Kennedy, que é a presidente da ONG, expressou “profundo desapontamento” com as visões anti-trans de Rowling.

Rowling recebeu o prêmio – que homenageia líderes de negócios internacionais, entretenimento e comunidades ativistas que demonstraram um compromisso com a mudança social – em dezembro de 2019.

No entanto, em 3 de agosto de 2020, Kennedy, filha de Robert F. Kennedy, escreveu em uma declaração no site da organização contando que havia falado com Rowling para expressar sua “profunda decepção” com os “tweets e declarações transfóbicas” de Rowling.

“[Rowling] escolheu usar seus talentos notáveis ​​para criar uma narrativa que diminui a identidade de pessoas trans e não binárias”, escreveu Kennedy, “minando a validade e integridade de toda a comunidade trans”.

Kennedy disse que as declarações de Rowling contribuíram para um ambiente no qual as pessoas trans já estão sujeitas a discriminação, estigma, exclusão, assédio e violência, fatores que levam a altos índices de danos mentais e até suicídio.

“A ciência é clara”, continuou Kennedy, “o sexo não é binário…. Direitos trans são direitos humanos. Os ataques de Rowling à comunidade transgênero são inconsistentes com as crenças e valores fundamentais dos Direitos Humanos de RFK e representam um repúdio à visão de meu pai.”, disse ela.

Em um comunicado em seu site pessoal, Rowling se defendeu, chamando-se de “uma doadora de longa data para instituições de caridade LGBT e uma defensora do direito das pessoas trans de viverem livres de perseguição”. Entretanto, como é de praxe, Rowling fez adendos transfóbicos às suas justificativas.

“A declaração da ONG dizia que eu era transfóbica e que sou responsável por causar danos a pessoas trans”, escreveu Rowling. E continuou: “Eu refuto totalmente a acusação de que odeio pessoas trans ou desejo-lhes mal, ou que defender os direitos das mulheres é errado, discriminatório ou incita danos ou violência à comunidade trans”.

Ela então escreveu sobre “disforia de gênero” (quando a identidade de gênero de uma pessoa difere do gênero que lhe foi atribuído no nascimento), detransicionamento (a reversão de uma transição de gênero que ocorre em uma porcentagem muito pequena de pessoas trans) e sua “conclusão infeliz de que um escândalo ético e médico está se formando ”sobre crianças transexuais que tomam bloqueadores hormonais prescritos por médicos para retardar a puberdade”.

Ao repetir esses pontos de discussão anti-trans e sugerir (mais uma vez) que a existência de mulheres trans de alguma forma põe em risco os “direitos das mulheres” e a segurança das “mulheres mais vulneráveis”, Rowling continua fomentando pânico e ódio injustificado e sugerindo que as pessoas trans são de alguma forma perigosas para mulheres e crianças, um ponto de vista que as torna alvos de violência, estigma e preconceito.

Rowling finalizou se dizendo profundamente triste por devolver o prêmio, mas que prefere deste modo: “Nenhum prêmio ou honra significa tanto para mim que eu perderia o direito de seguir as diretrizes de minha própria consciência.”

Criador Põe na Roda, canal do youtube de humor e informação LGBT desde 2014, com mais de 150 milhões de visualizações e 1 milhão de inscritos. Autor do livro "Um Livro Pra Ser Entendido", que desmistifica questões do mundo gay e sobre ser LGBT para todos os públicos. Também foi roteirista de TV (Amor & Sexo, Adnight, CQC, Furo MTV) e colunista (Folha de S. Paulo).