Em um momento bizarro e triste da TV brasileira, o comentarista Leandro Narloch, da CNN Brasil, deu um show de ignorância enquanto falava sobre a liberação da doação de sangue por homossexuais.

Em uma fala desatualizada, preconceituosa e cheia de desinformação que só reforça estigma e preconceito, ele afirmou: “A mudança na verdade é pequena, ela vai restringir mais a conduta e não o tipo de pessoa, a opção sexual (sic) do indivíduo. Toda essa polêmica começou porque, não há dúvida disso, os gays, os homens gays, eles têm uma chance muito maior de ter Aids, né? Em 2018, uma pesquisa mostrou que 25% dos gays de São Paulo eram portadores de HIV. Mesmo que esse número seja exagerado, e de fato ele parece mesmo exagerado, o fato é que é dezenas de vezes maior a chance [do homossexual ter HIV] do que na população em geral. A questão é que outros critérios para exclusão já restringem os gays que têm comportamento promíscuo, né?”.

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Bem, vamos por partes. Pra começo de conversa, não existe “opção sexual”. Existe “orientação sexual”. Desde a década de 90 já é um consenso – e recomendação da própria OMS e das Nações Unidas – que ninguém opta pela sua sexualidade. Como jornalista de uma emissora como a CNN é um absurdo não saber o mínimo pra querer ainda opinar sobre sexualidade.

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Segundo: Promiscuidade? Leandro, existem mais héteros do que homossexuais infectados pelo vírus do HIV, você sabia disso? É fato que PROPORCIONALMENTE (considerando o tamanho de cada uma destas populações) existam mais pessoas homo do que hétero vivendo com HIV. Mas por que, afinal? Aprenda, por favor!

Isso não se dá pela orientação sexual e sim por algumas práticas sexuais, como o sexo anal, serem mais habituais entre gays do que héteros. O sexo anal sem preservativo é justamente a forma mais fácil do HIV ser propagado, por proporcionar facilmente um contato de corrente sanguínea com corrente sanguínea. Converse com um médico infectologista e estude o assunto antes de espalhar informação que só gera mais estigma, preconceito e discriminação em um veículo de grande alcance.

Comparar gays a HIV é como fazer como fez a preconceituosa ex-jogadora de vôlei Ana Paula Henkel recentemente com negros, tentando justificar o racismo comparando números de criminosos e presos à proporção destes entre a população negra: se desconsidera o contexto real, questões científicas e sociais e se apega a dados rasos e superficiais que apenas reforçam preconceitos e estigmas.

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É por conta deste preconceito inclusive que HÁ ANOS a própria OMS já alterou o conceito de “grupo de risco” para “práticas de risco” e o próprio STF entendeu que proibir uma pessoa de doar sangue com base em sua orientação sexual é um conceito discriminatório e errado.

Héteros também fazem sexo com várias pessoas e praticam sexo anal, afinal. E há gays em relacionamentos monogâmicos e também muitos que se cuidam não apenas usando camisinha (proporcionalmente muito mais do que heterossexuais e isso são dados!), mas também se testando regularmente quanto a ISTs e utilizando medicamentos como a PREP que IMPEDE a contaminação por HIV. Algum hétero usa PREP? Camisinha com a mesma regularidade que maior parte dos homens gays?

Aliás, se estudasse o assunto ATUALMENTE, Leandro, você saberia que o número de novos casos de HIV no Reino Unido entre gays caiu 70% justamente por conta da PREP. Em São Paulo, onde ainda não há distribuição em larga escala, já caiu quase 20%. Curiosamente, entre héteros, o número de infectados por HIV continua estável ou subindo, em especial em grupos como a terceira idade.

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Outro dado que você como jornalista deveria saber: Em países onde se permitiu a doação de sangue por homossexuais, NÃO HOUVE AUMENTO no número de sangue contaminado doado. São dados do AIDSMAP, se quiser se informar. Se maior parte dos LGBTs podem doar sangue e todo sangue doado é examinado de qualquer forma, estes fazem UM FAVOR ao sistema de saúde que sempre está com os bancos em falta do material. Por favor, cumpra sua obrigação como jornalista e se atualize e se informe. E não espalhe mais desinformação só reforçando discriminação que já sofremos no dia a dia e lutamos contra.

Nas redes sociais, felizmente muitas foram as mensagens de repúdio à fala ignorante do jornalista. Triste, CNN Brasil.

Se quiser e tiver estômago, assista abaixo o momento na íntegra que constrangeu visivelmente até os âncoras do jornal:

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Criador Põe na Roda, canal do youtube de humor e informação LGBT desde 2014, com mais de 150 milhões de visualizações e 1 milhão de inscritos. Autor do livro "Um Livro Pra Ser Entendido", que desmistifica questões do mundo gay e sobre ser LGBT para todos os públicos. Também foi roteirista de TV (Amor & Sexo, Adnight, CQC, Furo MTV) e colunista (Folha de S. Paulo).