Bruna Dellacqua é inspetora penitenciária e mora em Serra, no Espírito Santo. Sua história seria de mais uma mulher que estudou e prestou concurso para trabalhar na área de segurança pública e cumpre bem sua função, se não fosse um porém: ela é uma mulher trans.

Trabalhando em uma área ainda bastante machista e preconceituosa, ela começou sua transição de gênero em 2014 quando tinha 21 anos e já trabalhava na área, ainda vivendo como homem. Foi quando chamou seu chefe para avisar de sua transição ao gênero que entendia pertencer.

Temendo retaliações ou até preconceito, Bruna foi surpreendida por uma chefia acolhedora, que exigiu a todos os funcionários que a respeitassem em sua condição: “Meus chefes são maravilhosos”, disse ela.

E explicou como se deu a situação: “Chamei meu chefe e disse: eu quero fazer minha transição e não me sinto bem do jeito que estou. Quero saber o que você acha, perguntei. Ele respondeu se minha decisão iria afetar meu profissionalismo e disse a ele que não. Aí, ele falou que era uma questão minha e de mais ninguém. Convocou chefes e disse que não queria ouvir nenhuma gracinha sobre mim”, disse ela em entrevista ao Universa.

Com o respeito recebido, Bruna continuou executando seu trabalho com todas as condições e dignidade. Ela, que começou fazendo escolta e subindo muralha pra fazer vigilância e andando em presídios, hoje trabalha para uma vara criminal de Vitória, no setor de regime aberto.

“Temos 9 mil pessoas em regime aberto no Estado do Espírito Santo. São pessoas que saem da cadeia pra trabalhar e estudar durante o dia. Dou orientação, atesto comparecimento e encaminho à Defensoria Pública relatórios de acordo com o comportamento”, disse ela explicando sua função atual.

Um excelente diferencial no caso de Bruna – e ainda ignorado por muitos profissionais da segurança pública –  é o trato em relação à população trans, fazendo questão de respeitar a identidade de gênero destas pessoas.

Costuma ser horrível para uma pessoa transexual ser chamada pelo nome de batismo, dado ao nascer com seu sexo biológico. Bruna sabe bem disso: “Atendo a duas ou três travestis nesse setor atual. Uma vez, elas me entregaram o documento meio constrangidas. Eu perguntava qual era o nome delas (social), o nome que não estava no documento”.

Apesar da privilegiada posição que ocupa, Bruna sabe bem que esta não é a realidade de maior parte dos transgêneros no Brasil: “Sou formada em administração, tenho especialização em recursos humanos. Eu cursei Direito até o quarto período. Falo quatro idiomas. Isso é conteúdo acadêmico, mas o que eu quero dizer é o seguinte: eu tenho, a meu favor, estudo, e minha passibilidade.”

Passabilidade é um termo usado para falar de pessoas trans que são reconhecidas facilmente socialmente pelos outros com o gênero pelo qual se identificam. Grosseiramente explicando, por exemplo, uma mulher trans que qualquer um diria que “é mulher” de acordo com sua aparência (e é mulher independente disso, ok?). Muitos transgêneros ainda são discriminados e sofrem muito mais preconceito por não terem um visual que esteja 100% reconhecido socialmente conforme seu gênero.

“Para a mulher trans e travesti se destacar no trabalho, ela tem que ser brilhante. O mínimo erro que eu cometa vão dizer que é porque sou trans. De tanto levantar e cair na vida, a gente vai endurecendo. Tenho uma amiga me diz que eu sou uma castanha: dura por fora e mole por dentro”, conclui Bruna.

Confira a matéria original completa com ela no portal Universa.

Criador Põe na Roda, canal do youtube de humor e informação LGBT desde 2014, com mais de 150 milhões de visualizações e 1 milhão de inscritos. Autor do livro "Um Livro Pra Ser Entendido", que desmistifica questões do mundo gay e sobre ser LGBT para todos os públicos. Também foi roteirista de TV (Amor & Sexo, Adnight, CQC, Furo MTV) e colunista (Folha de S. Paulo).