A velhice vem acompanhada de muitas inevitabilidades: desde encontrar linhas ao redor dos olhos, até doenças e enfermidades. Entre idosos, a taxa de pessoas que diz viver sozinha, sentir solidão ou ainda viver na pobreza dependendo de pensão do Estado, é bastante alta. Pense então na realidade de pessoas transgênero mais idosas, que ainda viveram a vida em uma geração onde sua própria condição não era sequer discutida, visível, isso quando não era proibida?

Não apenas falando no preconceito da sociedade, mas ainda, como seria se identificar como trans em um tempo onde existiam menos condições ainda de se expressar? Sem tantas possibilidades de cirurgias plásticas, possibilidades de hormonização do corpo, implantes, remoções ou adaptações do corpo, acessórios desenvolvidos especificamente para este público, etc? Estamos falando então de uma geração extremamente vulnerável!

VÍDEO NOVO DO PÕE NA RODA:
VEJA TAMBÉM:  Julia Roberts faz post simples e poderoso em defesa da diversidade

Tudo isso foi o que teve em mente o fotógrafo de moda Bex Day no projeto que desenvolveu durante três anos ao fotografar apenas pessoas trans idosas. Chamada “Hen” – um nome de gênero neutro sueco – a mostra acaba de entrar em exibição em Londres.

Em entrevista à, Vogue Italia Bex diz que muitas de suas imagens são sobre empoderamento, igualdade e liberdade de escolha: “Eu gosto de questionar o que é considerado ‘normal’. Eu estou ansioso para mudar a forma como as pessoas pensam e diminuem o pensamento preto e branco através das minhas fotografias. Quando comecei, senti que não havia (e ainda não há) visibilidade suficiente da comunidade transgênero mais velha na mídia.”

Irene Heath, uma das mulheres trans idosas fotografadas, lembra bem sua situação e dos poucos idosos trans sobreviventes de sua geração. Sobreviventes tanto pela baixa expectativa de vida desta população, quanto muitos que sequer se assumiram e continuaram vivendo a vida como cisgêneros escondendo seu eu verdadeiro: “Muitas pessoas trans mais velhas ainda não se sentem capazes de ‘sair’ publicamente como trans porque foram criadas em um momento em que isso era menos aceitável. Um bom tempo antes das celebridades e modelos trans e não-binários proliferarem a mídia e a moda”. 

VEJA TAMBÉM:  Atriz trans interpretará Roberta Close em filme sobre Hebe

Ela diz ainda que muitas pessoas trans que conheceu estão vivendo em segredo até hoje: “Algumas até casadas, com o marido ou a esposa sem saber que são trans. Será que ela seria apoiada ou ganharia o divórcio?”, questiona Irene.

Já Daniel, um assistente social que também aparece na exposição lembra como a Internet tem mudado o jogo e dado a nova geração uma realidade, que embora ainda seja difícil, é muito melhor e inimaginável pra quem vivia sendo trans antes: “Eu não conheci outra pessoa trans até que eu tinha 20 anos. Mas esses jovens online, eles têm um ao outro”.

Confira abaixo algumas das fotos de Bex Day:

A exposição Hen está em cartaz de 1º a 7 de abril na Herrick Gallery, em Londres. Uma parte das vendas de impressão será doada para a Stonewall Housing e Press For Change. Hen the Film é co-dirigido por Bex Day e Luke Sulivan.

VEJA TAMBÉM:  Travesti e doutora em Educação, Megg Rayara ganha título de cidadã curitibana
Avatar
Criador Põe na Roda, canal do youtube de humor e informação LGBT desde 2014, com mais de 150 milhões de visualizações e 1 milhão de inscritos. Autor do livro "Um Livro Pra Ser Entendido", que desmistifica questões do mundo gay e sobre ser LGBT para todos os públicos. Também foi roteirista de TV (Amor & Sexo, Adnight, CQC, Furo MTV) e colunista (Folha de S. Paulo).