Se eu pudesse dar um título para parte da história de Taiguara Nazareth, com certeza seria algo como “Encontro de Dois Mundos“.

Não que a vivência do artista que já fez de um TUDO nessa vida (desde a minissérie “Presença de Anita” até novelas como “Duas Caras” e “Tititi”, além de musicais off-broadway como “A Bela e a Fera” e “O Mágico de Oz”) possa se resumir ao fato dele circular por dois universos completamente diferentes, mas, depois da conversa que tive com ele pra escrever essa matéria, não consigo tirar isso da cabeça.

Desde muito novo Taiguara teve que aprender a se adaptar. Com 16 anos ele já dividia sua vida entre treinos de futebol e sessões de fotos, testes de modelo e passarela. O mundo começava a se abrir pra ele e ele, grato pelas oportunidades, absorvia tudo o que podia.

Taiguara é um homem negro, heterossexual e cisgenero. Trabalha desde muito cedo e recentemente tem mostrado o que sua vivência dividida entre vestiários de futebol e bastidores da moda e do teatro acrescentaram em sua vida.

Em entrevista exclusiva ao Põe Na Roda, Taiguara Nazareth fala sobre sua relação com a comunidade LGBTQ, representatividade negra na mídia e como um homem hétero pode contribuir para a diminuição do preconceito.

VÍDEO NOVO DO PÕE NA RODA:

Eu já começo perguntando sobre a peça a qual ele integra o elenco como protagonista: “Madame Satã – Um Espetáculo Musical Brasileiro“. A icônica peça que retrata a boemia carioca no século XX, é extremamente importante e por diversas razões. Artisticamente, é um verdadeiro espetáculo de música brasileira. O samba se faz presente na narrativa, já que a história se passa nos anos em que o ritmo começava a nascer e se espalhar por todos os cantos do país. Nesse cenário, surge João Francisco dos Santos, mais conhecido como Madame Satã. Uma figura emblemática e presente nas noites da Lapa, no Rio de Janeiro.

A trama aborda, de maneira única, temas contemporâneos como machismo, racismo e homofobia, como o próprio Taiguara descreve na entrevista: “Madama Satã é a bixa mais macho que já existiu. Uma bixa (negra) grande, nordestina, um macho que matava na capoeira, matava na faca, na bala… ele era violento“.

No espetáculo, três alter egos de Madame Satã ganham vida através de três atores. Taiguara é um deles. Um trabalho que ele diz ser pesado, mas, gratificante:

É uma demanda física, espiritual e mental muito grande. É uma peça difícil de fazer, mas, prazeroso enquanto resultado. O feedback das pessoas tem sido muito positivo. É um trabalho bom de se fazer“, disse ele.

Essa não é a primeira vez que o ator se vê imerso em trabalhos com temática LGBTQ+. Na verdade, isso o permeia durante boa parte da vida:

Eu fui modelo durante muito tempo. Então, ali já começou o contato. Eu era atleta, convivi em ambientes onde as piadas homofóbicas eram presentes o tempo todo, ainda mais quando se tem 13, 14 anos“, relembra ele quando perguntado sobre seu primeiro contato com a comunidade LGBT.

Mas, logo em seguida, eu comecei a trabalhar como modelo, que é um mercado onde a questão gay é muito presente. Então, como eu tive esse contato muito cedo, começou a ser normal pra mim. Foi um convívio que fluiu naturalmente“, completou.

Taiguara também chegou a protagonizar cenas quentes com a cantora drag Gloria Groove no clipe de “Apaga a Luz“. O trabalho não só o deixou mais em evidência com o público gay, como também o apresentou uma forma de contribuir para a causa: sendo um aliado.

Depois do clipe foi uma imersão mesmo. Sempre participei de eventos, durante muitos anos. Essa proximidade já existia, mas, após o clipe ficou muito mais forte. Agora, me policio muito mais sobre essas questões. Tenho tido a preocupação de entender esse universo até mesmo pra poder passar as informações adiante. Tento ler, entender, aprender, pra não passar a minha opinião, mas sim o que é. Como a comunidade LGBT determinou tal coisa“, explicou ele.

cena de “Apaga a Luz“, clipe de Gloria Groove

Por fazer parte também do mundo do esporte, um espaço ainda extremamente nociso para LGBTs, Taiguara não escapou de ataques e piadinhas homofobicas por seus trabalhos envolvendo a comunidade:

Existe essa questão de que eu sou o arquétipo do homem negro, cis, heterossexual. A hipersexualização do homem negro, do pegador e aí eu tô lá imerso nesse universo gay do clipe da Gloria. Essa dicotomia é muito grande, de xingar no vestiário de futebol, das falas, das brincadeiras“.

Mas, o ator soube lidar bem com a situação:

Queimei a piada de muitos porque soltava tudo antes com falas e textos. Logo, alguns que eu já esperava ouvir alguma piadinha, não sem manifestaram

Como homem negro que já está a muito tempo na industria do entretenimento, Taiguara Nazareth também tem muito a dizer quando o assunto é representatividade negra na mídia:

Até vejo alguns trabalhos aumentando, mas, a passos muito aquém do que poderia ser. Como alguém que está a muito tempo na estrada, eu observo muito isso. Ainda parece que é pra justificar cota, sabe? Não é efetivo. Não retrata a realidade. Se você vê em obras 2 ou 3 negros as pessoas ainda se espantam e dizer: ´Você viu quantos negros?´. E só tem 3 em um elenco de 80 atores. Continua raramente tendo uma família negra“.

Quanto aos movimentos de empoderamento e discussões racias que tem crescido a cada ano, Taiguara pontua que são as mulheres e os LGBTs que estão realmente indo pra briga:

Eu vejo a mulher negra muito mais empoderada, muito mais consciente desse empoderamento. Elas se juntaram nessa sororidade, nessa busca. A comunidade LGBTQ. Acho que a pressão foi tanta que em determinado momentos eles estouraram a tampa da panela e vieram pra cima. Eles tem realmente mostrando a cara, ocupando os lugares“, respondeu.

Ainda sobre as discussões dentro da comunidade negra, o ator pontua que os homens héteros ainda não se encontraram nesse lugar de conscientização:
O homem negro tá sem lugar nesse contexto todo aí, sem esse lugar de consciência porque ele não foi trabalhado pra isso. Ele não foi tratado no afeto, na sensibilidade. Não pode chorar, não pode isso, tem que ser o pegador, ser reprodutor. O homem negro tá meio desencontrado nesse caminho“.

O ator diz que o diálogo é difícil mesmo entre amigos e colegas:
Eu tento conscientizar, mas, muitas vezes a gente ouve um ´nada a ver essas ideias aí´. Claro, tem sempre um ou outro que acaba ouvindo. Mas, falta muito ainda. E no final todas as questões acabam caindo no lugar do afeto. O homem negro ainda está muito sozinho. Nós, homens negros, somos uma potência. E tá na hora deles conseguirem enxergar isso“, pontuou.

Eu não sei vocês, mas, acredito que está mais do que claro que Taiguara Nazareth tem muito a dizer. Como um homem negro e hétero, eles transitou entre universos completamente diferentes e conseguiu extrair o melhor dos dois mundos. Durante a entrevista ele disse que não escolheu ser um aliado da causa LGBTQ, mas, que quando isso surgiu e por ser tão acolhido nesses espaços, não via porque não abraçar a oportunidade e ampliar sua voz pra ajudar a combater o preconceito e transformar a sociedade.

É claro que é um trabalho de formiguinha, ele mesmo está ciente disso, mas, é importante ter essas pessoas que furam a bolha e que conseguem ser ouvidas por quem não está habituado a discursos sobre tolerância e respeito.

Para ele é importante abrir novos diálogos: “Vou a eventos, dou entrevistas, falo sobre o assunto. Acho que é uma das formas que eu posso contribuir. Acho que aqueles que já tem essa conscientização, podem agir no micro mesmo. No seu entorno. Parar com as brincadeiras. É plantar a sementinha. Se um cara fala algo você rebate com informação. Por mais que pareça que ele não ouviu, ele ouviu. Uma hora pode ocorrer o “click” e ele começa a se conscientizar’.

Pra quem quer vê-lo no palco, ainda dá tempo!
Madame Satã – Espetáculo Musical Brasileiro” fica em cartaz até o dia 08 de Setembro no Teatro Jaraguá, em São Paulo.

Segue mais informações das apresentações:

Teatro Jaraguá
End / Tel: Rua Martins Fontes, 71 (Novotel Jaraguá), São Paulo/SP – (11) 95048-0563
Capacidade: 274 lugares
A partir de 12/07 até 08/09, Sexta e Sábado (21h) e Domingo (19h).
Ingressos: Plateia: R$ 60,00 / meia entrada: R$ 30,00.
Classificação: 16 Anos
Duração: 80 minutos
Gênero: Musical
Ingressos: https://www.sympla.com.br/eventos?s=madame%20sat%C3%A3