As atuais manifestações nos Estados Unidos chamam atenção para o racismo enraizado na sociedade. Os protestos globais surgiram em suporte a campanha Black Lives Matter (Vidad Negras Importam) para chamar a atenção ao preconceito e a discriminação que os negros enfrentam em todas as esferas da vida.

Dentre as várias manifestações e depoimentos, o ex-ator pornô gay, Race Cooper, um homem negro, conta que o racismo era “uma constante” quando trabalhava na indústria.

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Race Cooper começou sua carreira no pornô em 2009, depois de já ter trabalhado na televisão e no cinema. Naquela época, o Raging Stallion era considerado o mais diversificado de todos os estúdios de pornografia gay, conta Cooper. Lamentavelmente, ele agora acredita que só foi contratado na época para para que o estúdio pornô pudesse parecer menos racista.

“Em 2010, me tornei a única pessoa negra em período integral que trabalhava como funcionário. Havia um racismo sistêmico na empresa. A pergunta: ‘Existe alguém com quem você não gostaria de trabalhar?’ foi feita a todos os modelos, acompanhada do incentivo dos produtores e diretores para serem ‘honestos’ e ‘específicos'”, contou Cooper ao PinkNews.

Cooper relembra ainda ter ouvido pessoas sendo encorajadas a escrever categorias raciais com as quais seria desconfortável filmar uma cena. O ator conta que em sua experiência na televisão e no cinema as situações racistas eram imediatamente reconhecidas e banidas, mas na indústria do pornô era diferente.

O ex-astro ainda afirmou ter recebido menos do que seus colegas brancos quando trabalhou como ator pornô. Em uma ocasião, um homem branco foi escalado, 15 anos mais novo, e sem nunca ter filmado uma cena pornô antes, mas recebeu 200 dólares a mais por sessão do que Cooper.

“Até mesmo as cenas de fetiche que fiz, que pagaram um pouco mais, ainda pagaram menos do que para qualquer branco”, disse. Essas ações enviaram a Cooper uma mensagem, alta e clara: “Os negros valem menos”.

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“Fui feito para sentir que não era digno de elogios, validação e definitivamente menos valioso do que todos os atores brancos”, afirmou Cooper.

Tempos depois, seu tempo na indústria terminou após a união da empresa com a Falcon Studios. Ele relembra ter sido informado de que eles não precisavam de dois diretores de elenco: “Eu era a única pessoa demitida naquele momento. Eu também era a única pessoa negra na equipe.”

Race Cooper ainda observou que os homens negros ainda são fetichizados de maneiras degradantes dentro da indústria e o impacto sobre o ator é grave: “Quando você fetichiza uma pessoa, está transformando-a em algo. Fetiches como brincadeiras não têm nada a ver com raça ou cor da pele e qualquer um pode participar. Mas quando seu fetiche é ‘um cara negro’, você está retirando o componente humano e tratando-o apenas como objeto com base na cor da pele.”

Segundo ele, os homens negros na indústria pornográfica geralmente são reduzidos a nada mais do que uma parte do corpo, como é o caso da degradante categoria “BBC” ou “Big Black C**k”.

“Um humano com uma alma é reduzido a um vibrador preto como aqueles que você compra e possui, escondendo-o debaixo da cama até ficar com tesão e solidão”, afirmou Cooper.

Há ainda a constante descrição generalizada de homens negros na indústria como “chocolate”. Cooper explica a problemática do termo: “O chocolate é uma delícia, um prazer culpado que todos devemos renunciar em público e desfrutar em particular. É outro exemplo de fetichização.”

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A frequente escalação de negros para papéis de “bandidos” no pornô são outro exemplo de estereótipos raciais ofensivos para as pessoas de cor. O ex-astro explica que “a fetichização diminui a pessoa de cor, a usa apenas para gratificação sexual pessoal e a descarta quando feita. Esse impacto permanece com os negros que sentem que seu valor está apenas na gratificação sexual que eles podem proporcionar aos brancos.”

Após os contantes protestos e a vocalização das problemáticas raciais pela internet, várias pessoas começaram a expôr estrelas pornôs brancas que haviam feito comentários racistas ​​e também pelo apoio aberto a Donald Trump. Muitos grandes estúdios de pornografia gay responderam aos protestos divulgando declarações de apoio, mas, para Cooper, não é o suficiente.

Race Cooper quer que os estúdios pornográficos façam mais do que divulgar declarações gerais sobre diversidade. Em vez disso, ele quer que as empresas cortem de vez os laços com racistas declarados, algo que muitas relutam em fazer. Além disso, ele também chama atenção para que as empresas reconheçam que escalam muitos homens brancos – e, em alguns casos, heterossexuais – em vez de negros e gays.

Cooper gostaria que os estúdios pornô contratassem mentores de diversidade para ajudar na seleção de elenco, para assim poderem ajudar a melhorar a carreira de atores pornôs negros. Além disso, para ele a indústria da pornografia gay precisa acabar com o tratamento preferencial por atores “gay for pay” (heterossexuais que atuam em cenas pornôs gays) e também parassem de evitar os atores HIV-positivos.

“O que eu entendi é o seguinte: é fácil dizer que o racismo está apenas em outro lugar, como a brutalidade policial, ou em atores que expõem o racismo nas mídias sociais”, afirmou.

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“No entanto, como uma comunidade gay que quer ser verdadeiramente anti-racista e apoiar todos os nossos irmãos, irmãs e primos, temos que limpar a casa. Embora o Black Lives Matter se concentre na brutalidade policial, a maneira como vemos e tratamos os outros sexualmente e nos envolvemos com eles também deve ser abordada. Não basta apenas se preocupar com os negros em público, mas reduzi-los a objetos que escondemos debaixo da cama ao chegar em casa. Não podemos reivindicar empatia quando pessoas negras são mortas nas ruas, considerando que atualmente as tratamos de maneira diferente nos lençóis”, reforçou Cooper.

Em um comunicado divulgado ao Portal PinkNews, Tim Valenti, o presidente e CEO da Falcon/ Naked Sword, declarou seu respeito a Race Cooper por compartilhar a experiência de trabalho no Raging Stallion”.

“Acredito que vozes como a dele devem ser ouvidas. Eu só quero ouvir e trabalhar para fazer melhor. É verdade que nos 50 anos de história da Falcon, o estúdio contratou principalmente artistas brancos. Não posso desculpar as escolhas de Chuck Holmes ou de qualquer um dos veteranos do setor que administravam essa empresa antes de mim, mas posso garantir que, como presidente e CEO hoje, não quero que esse seja o legado da marca Falcon”, dizia a declaração.

A declaração ainda afirma que, apesar de se ter muito a melhor, a Falcon tem medidas para diversificar o seu rol de modelos, visando incluir mais homens negros, especificamente pessoas negras, em todas as produções.

“Embora não possamos mudar o passado, nós o reconhecemos e nos comprometemos com um futuro melhor. Minha equipe e eu estamos aqui, ouvindo e prometemos agir e seguir em direção à igualdade em nossa indústria e no mundo.”