Carnaval é época de fervor, dança e alegria. As ruas vão se enchendo de cor e bloquinhos, e as escolas de samba mostram para as pessoas toda as belezas cultivadas ao longo do ano anterior. A escola Unidos da Jucutuquara vai desfilar neste carnaval de 2020 com uma beleza a mais: a rainha de bateria transexual Melanie Jorden.

Antes de coroar Melanie, o processo de escolha se envolveu em uma polêmica por, supostamente, proibir a participação no concurso de travestis e transexuais. No entanto, o presidente da Liga Independente das Escolas de Samba do Grupo Especial (Liesge), Edvaldo Teixeira, afirmou que tudo havia sido um mal-entendido.

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A presidente do Grupo Orgulho, Liberdade e Dignidade (Associação GOLD), Deborah Sabará, ainda afirma que “Não se pode proibir uma pessoa que não fez a cirurgia de redesignação sexual de participar só porque ela tem um pênis. O pênis não define o gênero”.

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Nas redes sociais, Melanie se define como a “1° rainha trans do carnaval capixaba”. Em um post que compartilhava sua vivência enquanto mulher trans, relatou: “Como toda mulher, Melanie tem sonhos e luta por eles com todas as forças. E qual menina não sonha em ser rainha do Carnaval? Que realização!”.

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Melanie Jorden nasceu João. Um rapazinho que não conhecia o mundo e seus perigos. A gente despreparado e sem saber o que vem por aí. Mas antes de ser, já era. Dentro de João, sempre existiu Melanie. Mas ela tinha medo. Medo porque nasceu no país que mais mata travestis e transsexuais no mundo. Medo porque apesar de não ter explorado todo mundo, temia o que viria. Medo porque trans só tem um destino certo: prostituição. Quem quer amar uma trans? Mas antes disso, quem quer empregar uma trans? Melanie sempre existiu. Mas tinha medo. Um dia, criou coragem e decidiu não se esconder em João. Entendeu que ser mulher não se resume a uma genitália. Entendeu que ser mulher é um processo. E como Simone de Beauvior já havia dito há muitos anos atrás: não se nasce mulher, TORNA-SE. Desde que Melanie pôde ser sem medo, muita coisa mudou. A felicidade, apesar dos percauços da vida, se fez presente. Há quem olhe torto, há quem não a ache digna de ser amada, há quem a acha inferior. Mas ela não é, sente e sabe seu valor. Como toda mulher, Melanie tem sonhos e luta por eles com todas as forças. E qual menina não sonha em ser rainha do Carnaval? Que realização! Mas a função dos preconceituosos e mal amados é (tentar) destruir sonhos. E eles tentam, publicamente, menosprezar e subjugar, condicionar um corpo-flor a não ser, não se mostrar, se envergonhar. Melanie é só mais uma dentre tantas trans espalhadas por aí, que têm que enfrentar transfobia, machismo, racismo e preconceito de classe todos os dias. As vezes, vindo da direção de uma liga de escolas de samba, dizendo que ela não é mulher por um genital. Quem eles pensam que são? Eu digo o que são: criminosos! Em julho do ano passado, o STF decretou que LGBTfobia é crime inafiançável e imprescritível. Mas já viu algum transfobico ser inteligente? Jamais serão. Enquanto os cães ladram, a caranava passa. Seguirei passando, sambando, firulando e SENDO. Resistindo! A maior militância é ser feliz. O maior grito é me manter viva. Melanie. Mulher. Preta. Periférica. Trans. E tudo mais que eu quiser!

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