Em um desabafo bastante honesto – e com o qual muitos de nós LGBTs vamos nos identificar independente de curtir a dupla ou não – o blogueiro de turismo LGBT do Viaja Bi, Rafael Leick, abriu o coração sobre como a volta da dupla Sandy & Júnior, de quem era muito fã desde a infância e adolescência, mexeu com ele.

“Resolvi contar pra vocês uma história que queria contar há muito tempo: como Sandy e Junior foram importantes na minha vida de viajante e no meu entendimento como gay”, avisa ele logo no início de seu post.

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Logo no início Rafa lembra que seu amor por viajar o mundo – o que é seu trabalho hoje em dia – veio primeiramente por acompanhar as viagens internacionais da dupla a trabalho ou lazer pelo mundo: “Lembro muito de vários momentos dos dois na gringa por me marcar como ‘quero conhecer um dia'”.

Mas vindo ao que mais nos interessa, Rafa revela que Sandy e Júnior, sem saberem disso, lhe ensinaram sobre o que é homofobia e o ajudaram a sair do armário ainda na adolescência.

“Em 1995, ganhei o 1° CD da minha vida: Você é D+!, 5° álbum de Sandy e Junior, um que vinha com uma caixinha amarela transparente e os sucessos estrondosos Vai Ter Que Rebolar e Power Rangers. Eu amava Power Rangers (…) e no ano seguinte fui ver meu 1° show, aquele que a Sandy sempre conta que caiu no palco na música de abertura”, diz ele, que então explica a relação que faz da sua descoberta da sexualidade com a paixão pela dupla.

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Capa do álbum “Você é D+” de Sandy e Júnior.

O inferno começou com o bullying sofrido no colégio pra onde ele foi transferido, ainda pré-adolescente, pois era lá que a mãe dava aulas: “Eu e minha irmã conseguimos ir pra lá porque conseguiram 100% de bolsa pra nós”.

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E foi neste cenário, em um colégio aparentemente perfeito e com ótimos professores, que Rafa começou a sofrer o – tão conhecido por todos nós LGBTs – bullying homofóbico, quando os colegas descobriram que ele era era um grande fã de Sandy e Júnior e sua vida por lá se tornou insustentável, chegando a pedir à mãe que o trocasse de escola muitas vezes. Mas qual outra lhe daria uma bolsa de estudos?

“O filhinho da professora, que não gosta de futebol, que gosta mais de conversar com as meninas e tem uma coleção de papel de carta… O “viadinho” que em vez de usar o caderno do ‘Coringão, mano!’, tinha a Sandy na capa. O moleque era fã de Sandy e Junior. Era Viadinho! Baitola! Bichinha!”, lembra Rafa.

Na época, ainda sem qualquer consciência de sua sexualidade, ele simplesmente não entendia porque para os meninos era permitido ser fã de um time de futebol, mas proibido ser fã de Sandy e Júnior: “Oras, fazia mais sentido adorar macho jogando futebol do que uma dupla com uma cantora?”, questionava.

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E como todos nós LGBTs, Rafa então aprendeu pela primeira vez que deveria sentir vergonha de ser quem é: “Eu não podia me assumir. Fui forçado a sentir vergonha de gostar de Sandy & Júnior”, diz ele lembrando que era quase como uma droga ou sociedade secreta ser menino e fazer parte de algum fã-clube da dupla.

“Mais tarde, fui entender o quanto isso justifica a existência de balada gay, bar gay, loja gay, hotel gay, turismo gay… O gueto não deveria ter que existir, mas nele a gente se sente menos vulnerável e mais protegido do que com ‘amigos’ héteros que podem se tornar inimigos.”, diz Rafa em uma excelente analogia.

Rafa com Sandy (acima) e com Júnior na época.

Foi também a dupla que o ajudou a se dar conta da sua sexualidade: “Quando eu comecei a notar que meus desejos tendiam mais pra um lado ‘Junior’ do que um lado ‘Sandy’, me preocupei real oficial. Cara, então eu era mesmo toda aquela aberração que me faziam pensar que eu era? E é aí que Sandy e Junior voltam a outro turning point da minha vida. Eu era fã e tinha vergonha. Eu era gay, mas também secretamente”.

Rafa ainda lembra que a própria dupla teve que enfrentar uma barra por ter a vida exposta em uma fase tão confusa como é a adolescência: “Olha que a Sandy enfrentou uma virgindade pública e o Junior, uma sexualidade pública. Ambos assuntos de foro íntimo estampados na capa das revistas. Isso numa época em que ambos estavam descobrindo sua sexualidade, como qualquer adolescente, incluindo aqueles valentões do colégio. (…) Eu não queria estar na pele deles. Já me sentia exposto naquele microcosmos da escola, imagina nacionalmente, na mídia?!”.

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A conclusão de toda dificuldade enfrentada por Rafa é a lição que muitos nós LGBTs somos obrigados a aprender na vida de alguma forma (e eu, diga-se de passagem, aprendi com as Spice Girls rs): aprender a sentir orgulho de si mesmo em um mundo onde você é ensinado a sentir vergonha de quem é. Não a toa, nós LGBTs nos apegamos a referências que acabam nos salvando nesse processo de autodescoberta.

“Aí Sandy e Junior me ensinaram o que é ter orgulho“, diz ele. E justifica: “Ter orgulho de quem se é. E eu agradeço eternamente aos dois por isso. Tanto que pra mim foi quase que mais libertador eu poder falar ‘eu sou fã de Sandy e Junior’ do que ‘eu sou gay’”, conclui Rafa, que obviamente mal pode esperar pelos novos shows de retorno da dupla em 2019, e é claro que já tem seus ingressos garantidos na mão.

O post original do Rafa possui ainda mais curiosidades e detalhes sobre Sandy & Júnior, sua vida como fã da dupla e descoberta da sexualidade e homofobia. Confira em seu blog.

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Criador Põe na Roda, canal do youtube de humor e informação LGBT desde 2014, com mais de 150 milhões de visualizações e 1 milhão de inscritos. Autor do livro "Um Livro Pra Ser Entendido", que desmistifica questões do mundo gay e sobre ser LGBT para todos os públicos. Também foi roteirista de TV (Amor & Sexo, Adnight, CQC, Furo MTV) e colunista (Folha de S. Paulo).