Em tempos de pandemia, o impacto que o número de mortes por coronavírus no mundo é inegavelmente alarmante e, sobretudo, triste. Recentemente, o jornal New York Times lamentou na primeira página a “perda incalculável” de 100.000 pessoas para Covid-19 nos Estados Unidos.

The New York Times Devotes Sunday Front Page To List Of COVID-19 ...

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“Eles não eram simplesmente nomes em uma lista. Eles eram um de nós”, dizia o jornal publicado no dia 25 de maio . “Os números por si só não podem medir o impacto do coronavírus na América”. Assim, a página inteira foi preenchida de cima a baixo com notícias de morte de vítimas de todo o país. Nomes, idades, hobbies, profissões, personalidades e equipes esportivas favoritas estavam entre os detalhes pessoais incluídos para conscientizar o tamanho da tragédia.

Em um retrospecto, o portal Pink News analisou a diferença como o mesmo jornal retratou a marca de 100.000 mortes 29 anos atrás, com a única diferença era que se tratava de outra epidemia: a do HIV, que alastrava principalmente a comunidade LGBT na época.

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Em 25 de janeiro de 1991, o número de mortes por AIDS nos EUA atingiu o mesmo número de vítimas. Contudo, como a maior parte dessas mortes eram de pessoas LGBTs, e sendo assim, para a sociedade da época, a situação não justificava uma manchete de primeira página. E na realidade, nem na segunda ou sequer na terceira. A notícia foi publicada simplesmente na página 18, escondida abaixo da dobra do meio do jornal. Sem fotos e sem nomes. 

“Os EUA relatam que as mortes por AIDS agora ultrapassam os 100.000”, dizia a pequena manchete. Abaixo, havia uma história escrita pela Associated Press, já que o New York Times não escreveu sua própria matéria, e o texto foi marcado por uma linguagem fria da mesma forma como “a praga gay” era vista na época.

“O número de mortes por AIDS nos Estados Unidos subiu para mais de 100.000, com quase um terço das mortes ocorrendo no ano passado, disseram autoridades federais de saúde hoje. O Centro Federal para Controle de Doenças disse que o número de mortos está subindo e seus pesquisadores projetaram que nos próximos três anos mais 215.000 americanos morrerão de AIDS”, dizia a notícia.

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As mortes de 100.000 pacientes com AIDS foram enquadradas como meras “estatísticas” que “apontam para uma crise crescente”, quando na verdade a crise já estava em andamento.

Na época, a AIDS era a segunda principal causa de morte entre homens de 25 a 44 anos, perdendo apenas para lesões corporais. Mas o estigma em torno da doença foi tão grande que levou anos para o presidente da época, Ronald Reagan, pronunciar a palavra “AIDS” em público.

Reagan foi acusado de tratar a crise como “uma grande piada”, e muitos acreditam que sua apatia fez com que milhares de pessoas fossem infectadas e morressem, em parte porque atrasou a pesquisa essencial para entender e tratar o vírus.

Vale ressaltar que as crises ocorreram em períodos diferente e em escalas globais distintas, cada uma com suas particularidades. Mas vale a pergunta: se o coronavírus estivesse associado a comunidade LGBT+, teríamos toda essa comoção social, cobertura midiática e resposta rápida dos governos para proteger a população? 

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O número de mortes por AIDS nos EUA acabou por ultrapassar as 700.000 vítimas.