A Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância de São Paulo (Decradi-SP) registrou um crime motivado por LGBTfobia a cada um dia. Cerca de 21 vítimas procuraram ou foram encaminhadas à unidade especializada no estado.

As ocorrências documentadas ao longo do primeiro quadrimestre deste ano mostrou um aumento de 24% em comparação aos registros de denúncias desse tipo de intolerância em 2018. Em 2017, no mesmo período, 16 casos foram contabilizados pela Decradi.

Dos registros realizados, a injúria foi o crime mais comum dentre os contabilizados, seguido de lesão corporal, ameaça e difamação.

A Globo News teve acesso exclusivo aos 147 boletins de ocorrência registrados pela Decradi. Os dados mostraram que a cada seis dias seis casos de LGBTfobia são notificados. As informações apontaram ainda que 21h é o horário com a maior concentração de crimes desse tipo.

O professor de Diversidade e Discriminação da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FVG-SP), Thiago Amparo, disse que os dados fornecidos pela Decradi “apontam para um recrudescimento da violência contra a população LGBT”.

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“Esses registros se juntam a outros dados, como o Atlas da Violência divulgado recentemente e o relatório do Grupo Gay da Bahia, que corroboram esse aumento. Trata-se de um profundo retrocesso, uma vez que qualquer dado que se analise aponta para esse mesmo fenômeno”, argumenta Thiago.

Para o professor, ter os crimes de injúria e difamação como os mais registrados pela delegacia significa que há uma dificuldade em identificar a intolerância não-verbal.

“A Decradi é uma delegacia especializada, que tem um corpo de investigadores acostumados a apurar crimes como esse. Logo, se trata de crimes de mais fácil identificação. O desafio maior para a polícia é justamente identificar os crimes  com componente LGBTfóbico em que a intolerância não é verbalizada, sobretudo aqueles em que há violência por parte dos criminosos”, explica Amparo.

O ativista da Aliança Nacional de São Paulo, Agripino Magalhães, afirmou que, por meio de vítimas, percebeu um aumento nos casos de violência contra a população LGBTQ+ ao longo dos últimos meses na capital paulista.

Ele criticou ainda o fato de a cidade ter apenas uma Decradi. “Não se divulga, como se deveria, a existência dessa delegacia. Por que uma mulher, que é vítima de violência, vai a uma Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) assim que sofre uma agressão? Porque há várias dessas delegacias na cidade. No caso da população LGBT, só vão à Decradi as poucas pessoas que sabem que há essa delegacia no centro da cidade. Quando o registro é feito em outro distrito policial, a polícia não classifica o caso como motivado por homofobia”, aponta.

A Decradi é uma delegacia especializada, criada em 2006, após o adestrador de cães Edson Neris da Silva ser assassinado por um grupo de skinheads, na Praça da República, no Centro de São Paulo, por ser gay.

A Secretaria de Segurança Pública (SSP) disse ao G1 que a pasta “promove diversas ações para combater os crimes contra as vítimas LGBT”.

“Além da Delegacia de Polícia de Repressão aos Crimes Raciais e de Delitos de Intolerância (Decradi), do DHPP, todas as unidades policiais estão aptas para registrar ocorrências dessa natureza. Em novembro de 2015, foram adotadas a inclusão do nome social e a opção ‘homofobia/transfobia’ no registro de ocorrência e as investigações desses casos acabam por inibir a prática de novos delitos”, ressaltou.

O órgão acrescentou ainda que “Outras ações discutidas e concretizadas pela SSP foram o aumento da carga horária de matérias relacionadas aos Diretos Humanos em cursos ministrado pela Acadepol, bem como a divulgação da cartilha da ‘Diversidade Sexual e a Cidadania LGBT’, elaborada pela Coordenação de Políticas para a Diversidade Sexual da Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania”.

Fonte: G1