A Carta Manifesto surgiu quando os artistas homens trans Leo Moreira Sá — ator, dramaturgo e lighting designer — e  Daniel Veiga — dramaturgo, ator e diretor —, se encontraram no início do ano para buscar um caminho que pudesse reverter o cenário de invisibilidades que insiste em apagar artistas transmasculines no Brasil. A partir da troca de conversas sobre suas vivências e observações do mundo, Leo e Daniel elaboraram a Carta Manifesto que será lançada em 21 de agosto de 2020 nos canais oficiais do CATS — Coletivo de Artistas Transmasculines, seguida de uma série de  lives com artistas parceiros e/ou aliades cis da indústria do entretenimento.

A decisão de trazer à tona a discussão sobre a invisibilidade transmasculina nas artes foi impulsionada por um acontecimento trágico: o suicídio de Demétrio Campos, um jovem ator e bailarino trans negro periférico. Nascido numa comunidade do Rio de Janeiro, Demétrio havia recém se mudado para São Paulo e estava tentando impulsionar sua carreira artística quando o isolamento provocado pela pandemia do Covid-19 causou o cancelamento de diversos projetos na área, lançando-o numa situação ainda mais precária, algo comum entre artistas, sobretudo pessoas trans.

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Um estudo realizado pelo Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT do departamento

de Antropologia e Arqueologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) concluiu que 85,7% dos homens trans já pensaram em suicídio ou tentaram cometê-lo. Enquanto travestis e mulheres trans são assassinadas em números que só crescem a cada dia, homens trans são pela transfobia estrutural. Esses números alarmantes não são divulgados, contribuindo para a invisibilidade dessas identidades.

A morte de Demétrio e esses dados assustadores, trouxeram a certeza de que era preciso iniciar um movimento que questionasse a ausência de projetos e a falta de interesse da indústria do entretenimento com relação a artistas transmasculines.

Para dar potência a esse movimento, que só teria sentido se fosse um instrumento político que pudesse aglutinar e mover outres artistas em torno da luta comum contra a invisibilidade de nossa comunidade, Leo e Daniel criaram o CATS – Coletivo de Artistas Transmasculines. Com este projeto estratégico, outras pessoas transmasculinas e homens trans uniram-se aos dois, todes artistas, em uma iniciativa que busca trazer visibilidade a essas existências para além da arte. Até então eram poucos os que apareciam fazendo algum trabalho em projetos artísticos.

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Assim, constatou-se que a invisibilidade de transmasculines é tão grande que nem mesmo os artistas se conheciam em sua própria comunidade, dada a dificuldade de se encontrar pares políticos. Aos poucos foram criando redes de contato, indicando um ao outro e hoje o CATS tem em torno de 30 membros que participaram de alguma forma na gravação e elaboração da Carta Manifesto.

O CATS tem diversos objetivos, entre eles, gerar mais oportunidades de trabalho para artistas transmasculines, inclusive em produções próprias; divulgar plataformas com informações sobre os artistas, onde produtores, diretores e criadores de forma geral poderão buscar por tais profissionais de acordo com a linguagem; o desenvolvimento de um canal no Youtube voltado ao público em geral e que, com ineditismo, documente a história da luta transmasculina brasileira, com o propósito de fortalecer o movimento; o acompanhamento e fiscalização de políticas públicas que atendam às demandas destes profissionais e, isso, só para começar.

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Assista ao vídeo-manifesto do CATS abaixo:

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Criador Põe na Roda, canal do youtube de humor e informação LGBT desde 2014, com mais de 150 milhões de visualizações e 1 milhão de inscritos. Autor do livro "Um Livro Pra Ser Entendido", que desmistifica questões do mundo gay e sobre ser LGBT para todos os públicos. Também foi roteirista de TV (Amor & Sexo, Adnight, CQC, Furo MTV) e colunista (Folha de S. Paulo).