Foi notícia em toda imprensa que na última semana, um jogo entre o São Paulo e o Vasco foi interrompido pelo árbitro Anderson Daronco. Seguindo as novas regras da Fifa, ele solicitou à torcida que não proferisse insultos homofóbicos à torcida adversária.

A medida da Fifa é essencial em um mundo tão homofóbico como é o esportivo, principalmente masculino. Não à toa tantos atletas ainda preferem viver enclausurados no armário ainda hoje. E ter uma sexualidade usada como demérito ou como ofensa, só colabora para perpetuar a homofobia introjetada na sociedade onde vivemos. 

Vale lembrar inclusive que, no Brasil, LGBTs que saem do armário ainda são expulsos de casa, tem maior dificuldade de colocação no mercado de trabalho, índices muito maiores de depressão, suicídio e transtornos de ansiedade, isso fora o preconceito que sofrem ao, por exemplo, saírem na rua de mãos dadas com a pessoa amada ou irem a um restaurante juntos, uma pressão diária que nenhum heterossexual sabe o que é.

Mas nada disso parece refletir o comentarista da FOX Sports, Felippe Facincani, que mostrando zero de empatia e noção, tentou defender o direito dos torcedores serem usarem sexualidade como chacota ou ofensa para atingirem os adversários.

No programa “Expediente Futebol” do canal Fox Sports, Felipe afirmou:  “A gente tem que entender qual é a linha tênue entre uma brincadeira e uma tiração de sarro – que até pessoas que são homossexuais brincam uns com os outros com palavras que costumeiramente a gente tende a achar, agora, que são ofensivas – e quanto que isso é realmente uma discriminação social, racial, que aí, para mim, qualquer tipo de brincadeira já ultrapassa o limite”.

VÍDEO NOVO DO PÕE NA RODA:

O que Felipe não percebe na sua fala, é que justamente, usar sexualidade como demérito é o que colabora para a homofobia introjetada na cultura em que a gente vive. Ah, e quando um viado chama outro viado de viado, não é como demérito ou como ofensa, é até carinhoso e de maneira a ressignificar a palavra positivamente, totalmente diferente de uma torcida que quer ofender o time adversário.

Em sua fala, Felipe ainda tentou usar uma metáfora com “palhaços” para se explicar, sem sucesso: “Se a gente então transformar o ‘time de veado’ em ‘time de palhaço’, o palhaço vai se sentir ofendido”, disse.

Acontece, Felipe, que palhaço não apanha na rua gratuitamente só por existir sendo palhaço. Palhaço não é expulso de casa pela própria família por ser palhaço. Palhaço não é xingado gratuitamente por aí só por existir. Palhaço não tem seus direitos negados. Palhaço não morre por ser palhaço em mais de 70 países ainda nos dias de hoje.

E ser homossexual não é chacota, não é ofensa, não é demérito. É apenas uma característica, uma variável da sexualidade humana, algo já comprovado exaustivamente pela ciência. Usar gay como ofensa não é brincadeira como você tentou colocar, é homofobia sim e colabora para a violência e exclusão diária que muitos LGBTs passam por aí.

Vale refletir sobre seus privilégios antes de uma comparação tão esdrúxula….

Avatar
Criador Põe na Roda, canal do youtube de humor e informação LGBT desde 2014, com mais de 100 milhões de visualizações e 800 mil inscritos. Autor do livro "Um Livro Pra Ser Entendido", que desmistifica questões do mundo gay e sobre ser LGBT para todos os públicos. Também foi roteirista de TV (Amor & Sexo, Adnight, CQC, Furo MTV) e colunista (Folha de S. Paulo).