O pedido de desculpas de Kevin Spacey veio junto de uma saída do armário do galã que sempre teve sua sexualidade especulada e nunca quis falar sobre o assunto. Se assumir LGBT, para qualquer grande celebridade nos dias atuais, é louvável e pode ajudar a transformar o mundo e inspirar a vida de muitas pessoas que ainda vivem enclausuradas no armário, mas neste caso específico, não poderia vir em pior hora.

Por outro lado, e sem querer fazer o advogado do diabo aqui, mas até que ponto uma pessoa merece ser execrada publicamente por um erro cometido bêbado em uma festa 30 anos atrás, principalmente se não se nega reconhecer ou justificar o close errado, demonstra arrependimento e pede perdão pelo acontecido?

O fato é que não temos como saber se a intenção foi realmente sincera ou se a saída do armário foi só uma maneira de desviar o assunto do assédio que corre na mídia. Pra maior parte do público acabou pegando bem mal o ator usar uma situação pra falar de outra. É quase como se ele ligasse o fato de ser gay ao de ser assediador, quase como se precisasse se desculpar tanto por ser ter cometido um assédio, como por ser gay.

Analisando minuciosamente, e usando como base um artigo do HuffPost sobre o assunto, é possível perceber muitos erros na maneira como Kevin Spacey saiu do armário dessa forma, tornando um momento que poderia ser incrível e um ponto de virada em sua carreira e vida pessoal, em um close muito mais errado do que certo. Olha só:

Close Errado nº 1: Gays são predadores e abusadores
Depois de anos se recusando a responder perguntas sobre sua orientação sexual, Spacey só saiu do armário depois de ser acusado de assediar um garoto de 14 anos, o ator Anthony Rapp em 1986. Acabou parecendo egoísta e uma maneira de distrair a opinião pública do assunto do assédio. Misturando estes assuntos ele acaba reforçando o estereótipo em que ignorantes homofóbicos insistem quando colocam gays e abusadores de crianças na mesma categoria de “abusadores” e de “desvio sexual a ser tratado”.

Close Errado nº 2: Gays são assim porque abusam de álcool e drogas
Outro estereótipo errado reforçado pela atitude de Kevin Spacey. Ele se desculpou pelo “comportamento inapropriado quando bêbado”. Ser gay não é inapropriado. Ficar bêbado e abusar de alguém é. Ficou parecendo que ser gay é o que acontece quando você bebe demais, quando na realidade, o que acontece é que muitos “héteros de fachada” (vulgo gays que não se aceitam), quando bebem, se soltam e acabam cometendo abusos sem responsabilidade pela ingestão do álcool.

Close Errado nº 3: Bissexualidade não existe?
Em sua nota de desculpas Spacey nega a existência da bissexualidade. Ele afirma que teve relacionamentos com homens e mulheres, mas aproveita a ocasião pra se assumir gay. Ué? Ele era um gay que não se aceitava e forçava relacionamentos com mulheres, afinal, ou era bissexual mesmo? Seria uma satisfação louvável. Da maneira que ele coloca, não fica claro e tão pouco ajuda a questão bissexual que acaba muitas vezes sendo renegada e invisível na sigla LGBT.

Close Errado nº 4: Opção sexual?
Spacey escreveu: “Agora eu escolho viver como um homem gay”. Esse tipo de declaração só reforça a linguagem dos homofóbicos, de que ser gay é uma escolha. Oras, ninguém escolhe sofrer preconceito ou fazer parte de uma minoria. A escolha dele no caso é de viver abertamente sua sexualidade sem mais esconder, mas ele não está escolhendo ser gay em qualquer momento. Ninguém escolhe.

Close Errado nº 5: Gays são mentirosos e manipuladores
Kevin nas suas afirmações e misturando os assuntos, acaba fazendo parecer que gays são predadores sexuais. Mais uma mentira propagada por intolerantes e grupos homofóbicos por aí, que tentam fazer a diversidade parecer uma aberração sexual, um perigo para a sociedade. Na realidade é o oposto: casos de abusos, assédios e desvios acontecem justamente com pessoas que negam e não vivem plenamente sua sexualidade, como é o caso dos que vivem no armário e esporadicamente “matam a vontade”, consequentemente, sem responsabilidade e consciência na situação.


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Close Errado nº 6: Precisa de um motivo horrível pra então assumir ser gay?
Maior parte das pessoas ainda enxerga ser gay como algo negativo, algo a ser condenado. Ao usar uma acusação de assédio pra também sair do armário, Kevin Spacey tenta desviar o foco de “algo horrível” (ser acusado de assédio) pra que seja comentado sobre ele na mídia então algo aparentemente “menos pior” (ser gay). Ser acusado de assédio é uma coisa. Ser gay é outra. Pra que usar o mesmo momento pra misturar essas questões, Kevin?

Close Errado nº 7: Quer biscoito da comunidade LGBT agora?
Agora que foi execrado pela opinião pública e pelo “mundo hétero tradicional” que sempre o ovacionou, agora, pra tentar uma espécie de consolo e conseguir um pouco de aprovação por algum segmento que seja da sociedade, Kevin usa uma saída do armário para tal, tentando conseguir com isso alguma empatia e admiração da comunidade LGBT e simpatizantes. A saída do armário seria louvável e teria toda nossa admiração em qualquer momento da sua brilhante carreira, Kevin, mas não agora, né?

Através dos motivos é possível perceber uma série de homofobias internalizadas nas atitudes de Kevin Spacey, a mesma homofobia internalizada que o manteve no armário por todos estes anos evitando o assunto. O ator ainda tem muito a aprender sobre ser LGBT e uma série de preconceitos próprios e justificativas homofóbicas para os seus comportamentos inadequados, pra que de fato a gente possa dizer: Bem Vindo Ao Vale, algo que, acredite a gente adoraria e nos ajudaria muito, Kevin, mas se tivesse sido feito no momento certo.

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Criador Põe na Roda, canal do youtube de humor e informação LGBT desde 2014, com mais de 100 milhões de visualizações e 800 mil inscritos. Autor do livro "Um Livro Pra Ser Entendido", que desmistifica questões do mundo gay e sobre ser LGBT para todos os públicos. Também foi roteirista de TV (Amor & Sexo, Adnight, CQC, Furo MTV) e colunista (Folha de S. Paulo).