O Papa Francisco – que vinha tão bem, né? – causou desgosto e desilusão em muitos LGBTs católicos que o admiravam e renovam sua fé em um Papa finalmente mais inclusivo e tolerante, ao afirmar no último dia 16 de junho que famílias de verdade são as famílias formadas apenas entre homem e mulher.

O líder religioso afirmou: “É doloroso dizer isso hoje: as pessoas falam de famílias variadas, de vários tipos de família … [mas] a família de homens e mulheres à imagem de Deus é a única”.

As falas caíram como um banho de água fria em católicos LGBTs que se mostraram preocupados com a Igreja continuar tendo a postura desatualizada de sempre em relação às famílias existentes no mundo de hoje.

Sendo assim, o grupo católico inclusivo DignityUSA se reuniu para mandar o seguinte desafio ao Papa: “Prove que nossas famílias não são verdadeiras!”, conforme noticiou o portal britânico PinkNews.

Uma representante do grupo, e muito sensata, Marianne Duddy-Burke, afirmou: “Mais uma vez, o Papa está fazendo uma declaração abrangente que não se baseia na realidade, ou mesmo na boa teologia. As famílias assumem todos os tipos de formas. Quantas mulheres e homens solteiros estão criando filhos por uma série de razões? Há casais divorciados ou nunca casados que trabalham para co-pais de filhos. Casais do mesmo sexo e pessoas LGBTQI solteiras têm filhos de casamentos heterossexuais, através da adoção ou do parto.”

Justamente indignada, ela continuou: Alguns aceitaram as crianças que seus irmãos heterossexuais são incapazes de criar. Existem famílias estendidas multi-geracionais. Há casais, heteros e gays, que cuidam dos entes queridos que estão envelhecendo. Há pessoas que não têm vínculos legais ou genéticos que são familiares uns aos outros. Deus não pode ser refletido no amor e compromisso que essas pessoas têm umas com as outras?”

Sua reação dela não vem em vão. Marianne é lésbica, casada e tem filhos adotivos com a sua esposa. Em sua fala, ela ainda propôs ao Papa: “Dou as boas-vindas ao papa para passar um único dia em nossa casa e realmente acredito que ele experimentaria uma família ‘real’”.


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Marianne e sua esposa. Lésbicas e católicas.

Assim como muitos LGBTs, ela se mostrou confusa em relação a postura bipolar do Papa em relação aos LGBTs: “Ficamos intrigados com as mudanças repentinas no tom e conteúdo das declarações do Papa Francisco sobre as pessoas e questões LGBTQI.

Recentemente ouvimos relatos de que ele contou a um sobrevivente chileno de abuso sexual que Deus o fez gay e o ama como ele é. Esses relatórios não foram negados pelo Vaticano.

Se for verdade, como é errado, então, para uma pessoa LGBTQI formar uma família enraizada no amor e cuidado de seus membros, que também podem incluir crianças?”

E finalizou afirmando: “Ficamos imaginando: será uma questão de lutas internas pelo poder no Vaticano entre aqueles que querem maior aceitação para as pessoas LGBTQI e aquelas pessoas que não querem?

Declarações como a mais recente do papa indicam uma intenção calculada e voluntariosa de permanecer ignorando nossas vidas? O Papa e os bispos realmente querem aprender sobre as realidades das vidas e famílias LGBTQI?

Quando o Vaticano reconhecerá a necessidade de confrontar e mudar seus ensinamentos e linguagem tremendamente prejudiciais e contraditórios sobre as pessoas LGBTQI? Seja qual for o caso, são as pessoas LGBTQI e famílias em todo o mundo que estão pagando o preço terrível pelas declarações e ações do Papa e do Vaticano.”, concluiu Marianne.

Criador Põe na Roda, canal do youtube de humor e informação LGBT desde 2014, com mais de 100 milhões de visualizações e 800 mil inscritos. Autor do livro "Um Livro Pra Ser Entendido", que desmistifica questões do mundo gay e sobre ser LGBT para todos os públicos. Também foi roteirista de TV (Amor & Sexo, Adnight, CQC, Furo MTV) e colunista (Folha de S. Paulo).