Sou noveleiro, e daí? Adooooro.

Ontem, no capítulo da novela das 21h, apareceu uma nova personagem, Britney. Era um menino, que saiu de casa para estudar, passou cinco anos fora e, voltou transex. E chegou com a fala: “Podem me chamar de Britney”. A atriz é Glamour Garcia e, a vi pela primeira vez na TV.

A família, num primeiro momento pareceu meio assustada mas, a aceitou totalmente e a acolheu com amor. Obviamente, depois de alguma ajuda da protagonista da novela que dizia sem parar: filho a gente tem que amar!

Um dos irmãos disse, acolhedoramente, que sabia da transformação mas, não quis que a família soubesse por ele e, curiosamente, na trama, o outro irmão parece que vai ter uma relação homoafetiva com outro galã. Vale a pena esperar.

Mas, o mais curioso e, desculpem o pleonasmo, foi a curiosidade da família em saber da Britney se ela cortou, ou não cortou, referindo-se ao órgão sexual masculino dado que ela havia se operado para por próteses de silicone nos seios e nas nádegas.

VÍDEO NOVO DO PÕE NA RODA:

A linda fala da personagem Britney, ocorreu no capítulo subsequente quando ela pede um emprego no departamento de contabilidade da empresa, dizendo que queria um emprego normal pois, por ser transexual não queria estar fadada a fazer programa ou showzinho, no dizer dela.

Não tenho absolutamente nada contra quem faz programa ou shows mas, é fato que o mercado de trabalho ainda é muito retrógrado em relação a contratar trabalhadores das mais diferentes profissões por serem transexuais.

Ela conseguiu o emprego de contadora para quem não segue a novela mas, para a comunidade LGBT, nada é mais libertador do que ser reconhecido como cidadão comum. Nada de rótulos, nada de discriminação.

Mas, vamos voltar à curiosidade da família: cortou ou não cortou? 

Que diferença faz pra você que está lendo esse artigo, se um homem transex cortou o pênis e fez a cirurgia para criar uma vagina  ou, se a mulher transex fez a cirurgia para fechar a vagina e implantar um pênis? Os nomes científicos da cirurgia que se usa hoje em dia é genitoplastia de feminilização e genitoplastia de masculinização.

Que diferença faz para os pais, se os filhos fizeram ou não as cirurgias? 

Para a justiça e no Brasil, não faz diferença nenhuma, graças ao bom Deus. Já falei aqui em outro artigo sobre os nomes sociais dos transgêneros nos cartórios eleitorais e vou repetir parte daquele artigo.

Em março de 2018, o Supremo Tribunal Federal novamente inovando, garantiu aos a todos os transgêneros, que mudem seus prenomes de registro civil para seus nomes sociais – sem a necessidade de que sejam transgenitalizados, ou em bom português, sem cirurgia de mudança de sexo. Essa mudança antigamente dependia de ação judicial, mas a prova da cirurgia de mudança de sexo tinha que ser feita.

O impedimento de troca do nome do registro civil ou, antigo “nome de batismo” para o nome social atentava contra os direitos individuais à dignidade, à identidade e à aceitação social e pessoal do homossexual.

Rogeria, famosíssima travesti da família brasileira, como ela mesma se autodenominava, morreu Astolfo. Os direitos civis de Rogeria sempre foram respeitados porque ela era uma artista renomada. Todavia, a transgênero pobre e da periferia, ainda é morta por conta de sua condição sexual. Sim, condição! Não me venham com essa conversa de orientação sexual ou opção sexual. O homossexual nasce assim, e assim o é como condição. É como ser loiro, ser negro, ser brasileiro. Ninguém opta por ter olhos castanhos ou nariz pequeno. Tem porque tem e pronto. É gay porque nasceu gay. E quando decide se assumir, é como uma pessoa de cabelos crespos que para de fazer chapinha ou escova progressiva, uma libertação total!

Agora os libertos e libertas não só estão alforriados (aqui dito como não sendo mais escravos de um nome que não lhes representa), como também receberam documentos que provam essa alforria. E, a partir deles, podem casar, adotar, formar um lar com reconhecimento jurídico pois, esses lares sempre existiram.

Rogeria, sempre muito alegre e consciente de seus direitos, passou por uma época dura mas, como ficou muito famosa, não deve ter tido sempre que apresentar a identidade de Astolfo. Mas, as mortais normais, que não estão na cena artística, passam diariamente por este constrangimento.

E, o exemplo da porta da balada é pequeno perto da entrevista de emprego. Imagine você ir a uma entrevista, se apresentar como homem e seu registro ter um nome de mulher e, se apresentar como mulher e o registro ter seu nome de homem… É impensável para quem não passa pela experiência ou não conhece o direito, quanto isso pode ser constrangedor. O documento se chama “documento de identidade”. Ele agora, vai se adequar à verdade. A foto será de mulher e nome de mulher para aqueles transgêneros que quiserem assim se apresentar. A ação julgada pelo Supremo em março de 2018, era para declarar a inconstitucionalidade da proibição e, era mesmo insconstitucional e maldoso da parte das autoridades, impedir acesso à identidade, de pessoas que nasceram com identidade diferente no documento e no cérebro.

Case sim! Agora, mais ainda.