Um acampamento privado exclusivo para gays, de Michigan nos Estados Unidos, anunciou neste fim de semana que está proibindo homens trans de participarem de suas atividades. É isso mesmo: um acampamento gay sendo transfóbico. Algumas mãos a gente tem que soltar, né?

Segundo noticiado pelo LGBTQNation, Bryan Quinn, co-fundador do Camp Boomerang RV Park e Campground em Orleans, MI, escreveu um anúncio no grupo do Facebook: “O Camp Boomerang é um acampamento para membros e que permite apenas rapazes . Um ‘cara’, em termos desta discussão, é definido como uma pessoa com um pênis, [que] se apresenta como homem e tem uma identidade emitida pelo estado que diz ‘masculino’”.

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Quinn tentou justificar a transfobia alegando que o Camp Boomerang é uma entidade privada e por isso pode definir suas regras e definições de homem como achar mais adequado.

Inacreditavelmente ele foi além: “Entendemos que essa afirmação, infelizmente, pode não agradar a todos, mas sentimos que é necessária. Esperamos que todos os que visitam o Camp Boomerang desfrutem de um ambiente confortável, seguro e sem constrangimentos”, concluiu em seu posicionamento obviamente excludente e transfóbico.

A história se espalhou pelas redes sociais. No Twitter, um internauta escreveu: “Pra constar: foda-se Camp Boomerang, um projeto ‘gay’ de Michigan onde homens trans – que são homens afinal – são excluídos de seu espaço.

Outros começaram a postar no grupo do Facebook. Um pessoa perguntou se havia planos para que o Camp Boomerang começasse a fazer “verificações do pênis” antes de alguém entrar nos acampamentos.

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Quinn então admitiu “sem rodeios” que se houvesse o que chamou de “mulheres que agem como homens” no grupo, falando de maneira extremamente transfóbica e ofensiva para homens trans, isso incomodaria os planos dos outros homens “ficarem nus” juntos em atividades como nado no rio ou piscina.

“Nunca dissemos nada sobre ‘verificações do pênis’, mas vamos ser realistas aqui … se deixarmos os homens [trans] entrarem e eles forem nus na piscina, é quando é óbvio que não há pênis. Desculpe ser franco. Mas se você não gosta das regras, saia em silêncio”, sugeriu.

Felizmente muitos homens gays cisgêneros então começaram a reclamar da medida transfóbica: “Eu acho muito covarde você colocar sua opinião como regra do acampamento, não permitindo pessoas sem um pênis, mesmo que sua carteira de motorista tenha a designação masculina, tenham acesso”, escreveu Kenn Kennedy no grupo.

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E concluiu: “Se você acredita tão fortemente em sua postura, tenha a noção de parar e também ouvir o outro lado da conversa.”

Após uma enxurrada de críticas, a postagem de Kennedy foi excluída e ele foi bloqueado do grupo.

Desde então, vários membros já desistiram de fazer parte do acampamento. Com muitas outras opções em todo o estado para acampamentos LGBTQ, alguns afirmaram à reportagem que esperam que os outros grupos sejam mais inclusivos.

“Eu e muitas outras pessoas da comunidade de Detroit levantamos e falamos sobre a necessidade de ser um lugar que permitisse sim os homens trans”, disse Michael Champagne ao PrideSource.com. “Isso não devia nem ser questionado.”

Champagne disse ainda sobre o Boomerang Camp: “Eles são abertamente ignorantes e arrogantes e presumem o que significa ser um homem ou uma pessoa trans. Vivemos tempos de discursos de ódio, de discriminação. São coisas às quais não quero me associar. ”

Também procurado pela reportagem original do portal Pink News para comentar o caso, o Windover Women’s Resort, um acampamento privado lésbico apenas para mulheres, não respondeu de prontidão sobre as boas-vindas de mulheres trans ou não cis ao grupo.

No entanto, uma pessoa anteriormente envolvida com o grupo escreveu no Facebook que a organização exigia até que qualquer artista drag performando nos eventos do grupo fossem mulheres cisgênero, sinalizando que não são nada receptivas à participação de qualquer pessoa com pênis por lá, seja homem cis ou mulher trans.

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Outro acampamento  citado pela reportagem é o Campit Resort em Saugatuck, que não exige nenhum gênero felizmente, permitindo a entrada de todas as pessoas LGBTs independente do gênero: “Nossas políticas e nossas culturas [em Campit] estão a 180 graus de Camp Boomerang”, disse o proprietário Michael O’Connor. “Eles podem fazer o que quiserem. Não apoiamos políticas como essa em Campit. Somos receptivos e inclusivos.”

O’Connor, o webmaster da Gay Camp Association, acrescentou: “Damos as boas-vindas a outros acampamentos gays em Michigan e, eu acho, estamos agora em uma posição onde Michigan pode ser o centro dos acampamentos gays. Esperamos que os gays comunidade, em geral, parem de discriminar outros membros de nossa comunidade como os homens trans. Eu realmente gostaria de ver que todas as pessoas – cis ou trans- são bem-vindas.”

O Campit Outdoor Resort ainda postou em suas redes sociais: “Homens trans são homens. Mulheres trans são mulheres. Todos os gêneros são válidos. Sua genitália não define nada e nem é da conta de outras pessoas. Quem acredita no amor e que todo ser humano merece ser considerado na comunidade LGBTQIA+ são bem vindos aqui no Campit. Amamos vocês e esperamos pra vê-los em 2021!”

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Criador Põe na Roda, canal do youtube de humor e informação LGBT desde 2014, com mais de 150 milhões de visualizações e 1 milhão de inscritos. Autor do livro "Um Livro Pra Ser Entendido", que desmistifica questões do mundo gay e sobre ser LGBT para todos os públicos. Também foi roteirista de TV (Amor & Sexo, Adnight, CQC, Furo MTV) e colunista (Folha de S. Paulo).