Assim que saiu uma entrevista com o ator Rodrigo Pandolfo na imprensa no fim do ano passado, onde ele respondeu a um repórter do UOL que o filme “Minha Mãe é uma Peça 3” não teria beijo gay na cena de casamento onde ele interpreta o filho Juliano da mãe e protagonista do longa, Dona Hermínia (Paulo Gustavo), muito se problematizou na Internet.

Segundo críticas da época, a falta de um beijo gay seria um desperdício de uma oportunidade de se naturalizar um ato de afeto entre um casal gay em um filme popular e que leva milhões de pessoas aos cinemas. É verdade.

Mas bem, o filme já saiu e é preciso fazer justiça, corrigir excessos e reconhecer esforços. Acontece que “Minha Mãe É Uma Peça 3” é um filme extremamente inclusivo e pró-LGBT.

Na realidade pouco se nota a ausência do beijo quando a breve cena que mostra parte do casamento do filho da protagonista acontece. E sinceramente, há cenas muito mais “revolucionárias” para discussões de diversidade atuais do que o tal do beijo gay, como quando, por exemplo, inspirados na história real de Paulo Gustavo, a mãe leva o filho na escola fantasiado de Emília e defende ele de todo bullying homofóbico sofrido só porque ele é um menino que quis se vestir da personagem menina que tanto amava.

E se engana quem acha que para por aí. Na realidade o filme tem muitas cenas e mensagens que realmente educam enquanto divertem o público de maneira ora amorosa, ora engraçada, sempre mostrando a maneira natural com que Dona Hermínia lida com várias questões relativas à diversidade.

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Na realidade, em meio a estas cenas todas, e com o casamento não sendo o foco do filme e tendo tão pouca ênfase nos noivos (o filme é muito mais sobre a mãe Dona Hermínia do que sobre seu filho!), a ausência de um beijo gay mal seria notada se não fosse a polêmica que rendeu a entrevista do ator na época em que muitos (eu inclusive!) julgaram o fato como se fosse necessariamente uma “homofobia internalizada” do ator Paulo Gustavo.

Não, não há qualquer “homofobia internalizada” ou “conservadorismo” no filme, que se fosse desta maneira que foi julgado antes do seu lançamento, sequer tocaria no assunto diversidade de maneiras até ousadas e necessárias em tantos momentos.

Seguem abaixo 7 cenas (que eu me lembro!) extremamente inclusivas, didáticas, divertidas e amorosas do filme, que não só emocionam, mas provam que “Minha Mãe É Uma Peça 3” é sim um filme extremamente inclusivo e pró-LGBT.

Sendo assim, antes de qualquer coisa, fica aqui um mea-culpa, pedido sincero de desculpas ao Paulo Gustavo e até um agradecimento por levar à massa e milhões de espectadores que vêem sempre seus filmes no cinema, todas essas cenas descritas abaixo, que naturalizam a diversidade, educam e transformam, isso em um país ainda homofóbico como é o Brasil.

E fica a dica a todos nós LGBTs, principalmente militantes e ativistas (nos quais eu me incluo): pra não julgarmos tão precipitadamente. É natural que em um mundo onde até ontem todos os nossos direitos, igualdade, representatividade e visibilidade eram completamente negados, sermos ainda receosos, termos o pé sempre atrás e chiarmos ao menor sinal de retrocesso ara não darmos um único passo pra trás nas nossas conquistas recentes e ainda frágeis.

Mas muitas vezes neste “modo alerta” de se comportar nesse mundo ainda homofóbico onde todos nós queremos no fundo apenas vencer o preconceito e naturalizar o amor seja ele com quem for, convém puxarmos o freio de mão antes de acabarmos, sem querer, dando verdadeiros tiros no pé ou queimando aliados, enquanto ainda há tantos inimigos reais a serem combatidos, estes sim que devem ser cobrados e questionados.

1. Fantasia de Emília

Como  já dito acima, a cena em que Dona Hermínia defende seu filho na escola ao chegar fantasiado de Emília, é a coisa mais linda. Ela defende seu filho da discriminação homofóbica sofrida por outras crianças e até por pais que criticam uma criança do gênero masculino estar vestida de sua personagem favorita do gênero feminino: a boneca de pano do Sítio do Pica-Pau Amarelo que Paulo Gustavo tanto amava na infância.

Dona Hermínia não só arrasa ao detonar os homofóbicos como vai cantar uma música da boneca Emília na frente de todos sem qualquer vergonha, incentivando seu filho a ser fã e curtir quem ele bem entender independente do gênero da personagem. Uma verdadeira lição contra a babaquice, o machismo e masculinidade tóxica com que muitos meninos ainda são educados.

2. Bebê filho de pais gays

Em outra cena, enquanto Dona Hermínia anda na rua com uma amiga, passa por elas um rapaz com bebê no carrinho. Como quase toda mãe, ela não resiste a interagir e se derrete achando o bebê a coisa mais linda do mundo. Ao perguntar sobre a esposa, ele diz que tem um marido e ambos são pais da criança, sem qualquer cerimônia e na maior naturalidade. É importante notar a tranquilidade com que tudo ocorre como poderia acontecer com qualquer casal heterossexual com filho que passasse por elas ali.

E aqui vai uma curiosidade fofíssima: quem faz o pai nesta cena é o próprio Thales, marido de Paulo Gustavo na vida real. E os filhos? Claro, os dois filhos dos dois na vida também! Lindo demais, né?

3. Jantar entre as famílias dos noivos

É curiosa e divertida a cena em que o filho de Dona Hermínia e seu futuro marido, prestes a casar, fazem um jantar para suas famílias se conhecerem.

Ambos são plenamente aceitos como aconteceria com qualquer casal hétero da família. Na realidade, o único problema de Dona Hermínia é com a mãe perua, riquíssima e esnobe do namorado do seu filho, o que rende boas risadas.

A maneira natural como as duas mães lidam com seus filhos gays deveria ser um padrão na sociedade, mas infelizmente ainda não é em muitas famílias. É incrível que isso seja mostrado dessa forma. Este é mais um ponto positivo em que Paulo Gustavo arrasa ao “educar” a família tradicional que vai em peso ao cinema assistir suas obras.

4. Nome “gênero neutro” do neto

Durante o filme, a outra filha de Dona Hermínia engravida e também se casa (ah, sem beijo hétero e nem cena de casamento! Novamente: é uma obra sobre a mãe e não sobre seus filhos).

Há então um debate sobre a escolha do nome da criança proposto pela mãe: Aruã. Um dos pontos defendidos por ela é o fato do nome ser de “gênero neutro”, ou seja, livre tanto pra ser menino quanto pra ser menina. Há uma breve discussão sobre a irrelevância de gênero da criança e seu nome nos dias de hoje e Dona Hermínia não tem qualquer problema em relação a essa liberdade.

Na realidade a única questão problemática que ela enxerga ali é o nome ser muito curto e não possibilitar “chamar a atenção” com a mesma ênfase que um nome mais comprido como “Marcelina” na hora de dar bronca. Novamente: risos garantidos e educação quanto à diversidade e questões de gênero.

5. Irmãs que já pegaram mulher

Em uma cena onde passeia com suas irmãs de carro, Dona Hermínia fica sabendo em uma conversa bem descontraída e animada que elas não só andam transando ativamente como já pegaram mulher, ao contrário de Dona Hermínia que praticamente esqueceu que sexo existia na vida…

Há inclusive a sugestão de que Dona Hermínia poderia muito bem “experimentar”… E por que não? Novamente não há qualquer preconceito ou debate quanto ao gênero e tudo acontece na maior naturalidade, inclusive se falando em liberdade de sexo e desejo para uma mulher mais velha, o que ainda é um tabú para muitos ainda hoje, muitas vezes ainda mais do que um sexo lésbico.

6. O casamento do filho de Dona Hermínia

É verdade que o casamento não tem beijo gay como problematizadores lembraram exaustivamente, mas o foco do filme não é a cerimônia do filho e esta nem dura tanto assim na trama… Mas há algo extremamente marcante e inclusivo ali, muito além da já esperada união gay celebrada: um discurso que Dona Hermínia faz pró-famílias LGBTs para todos os convidados presentes.

A mãe simplesmente discursa sobre o medo que teve da homofobia do mundo ao saber que seu filho era gay, mas que isso jamais a impediu de amá-lo ou mesmo passou na frente do desejo de que ele fosse plenamente feliz, como deveria ser e estava sendo ali.

7. Declarações reais ao marido e aos filhos

Depois do filme acabar, logo no início dos créditos finais, passam vários vídeos caseiros da Dona Hermínia da vida real, a mãe do ator Paulo Gustavo.

Junto disso entram fotos da família verdadeira de Paulo Gustavo, e em muitas delas aparecem seu marido Thales e seus dois filhos gêmeos da maneira mais fofa e amorosa possível. Surge então uma declaração de amor maravilhosa de Paulo Gustavo ao marido Thales escrita na tela.

“Thales, meu amor. Você não imagina o impacto que sua existência causa na minha vida e o quanto você reforça diariamente o que existe de melhor em mim. Você enriquece meus dias com seu olhar amoroso, sua simplicidade e seus pés no chão. Gael e Romeu já são a semente do nosso amor para o mundo! O meu maior e melhor projeto é viver ao seu lado! Por tudo que só você é. Por tudo que só você é capaz de me dar, eu dedico este filme à você! Obrigado por tudo!”, diz Paulo Gustavo ao amado. Ali, estampado do tamanho da tela do cinema e na frente de toda família tradicional que comparece aos seus filmes em peso como sempre. E isso é maravilhoso.

A declaração de amor de Paulo Gustavo ao marido na tela do cinema.

Ta aí. Uma declaração de amor linda, verdadeira, e sinceramente, capaz de sensibilizar o coração dos milhões de espectadores e educar quanto à existência do amor independente do gênero das pessoas… e eu arriscaria aqui dizer (ainda que isso possa causar a ira de alguns militantes) de maneira talvez até mais efetiva pra muitos homofóbicos do que o tal do beijo gay.

Sem, é claro, desmerecer qualquer beijo gay aqui. Mas apenas reconhecendo que Paulo Gustavo e “Minha Mãe é Uma Peça 3” arrasam no quesito diversidade e inclusão em uma obra extremamente popular e que vale a pena ser vista e apreciada por todos. Seja você hétero cis ou LGBT, você vai sair do cinema certamente muito melhor do que entrou.

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Criador Põe na Roda, canal do youtube de humor e informação LGBT desde 2014, com mais de 150 milhões de visualizações e 1 milhão de inscritos. Autor do livro "Um Livro Pra Ser Entendido", que desmistifica questões do mundo gay e sobre ser LGBT para todos os públicos. Também foi roteirista de TV (Amor & Sexo, Adnight, CQC, Furo MTV) e colunista (Folha de S. Paulo).