Nos dias de hoje, muitas marcas já entenderam a importância de sair de cima do muro e se posicionar em relação a temas progressistas como a diversidade.

Embora ainda exista um risco do posicionamento devido a parte conservadora dos consumidores, o resultado tende a ser favorável não só em relação a imagem de companhias que apoiam a diversidade e liberdade humana, quanto em seus próprios lucros.

Se a atitude se dá por conscientização ou aumento do lucro, isso é uma outra discussão. Inevitavelmente vivemos em um mundo capitalista (se ele é bom ou ruim, novamente é outra discussão) e dificilmente conseguiremos algum progresso no momento fora dele. Portanto, se a roda do capitalismo puder girar a nosso favor, a favor do progresso e da igualdade, educando a sociedade e diminuindo preconceito e discriminação, e isso ainda ajudar as empresas que tem o culhão de se posicionar em um mundo ainda predominantemente conservador, que assim seja.

Um exemplo de posicionamento polêmico, correto e cujo resultado foi positivo foi o Boticário. Duramente criticado e alvo de propostas de boicote por parte de conservadores e evangélicos quando veiculou no Brasil uma campanha de Dia dos Namorados contendo casais de gays e de lésbicas, o tiro dos conservadores saiu pela culatra. Bem ou mal, falou-se muito na marca e a empresa ainda teve aumento de lucro no auge de uma crise econômica brasileira.

Infelizmente ainda não são todas as empresas que entendem essa importância nos dias atuais. Muitas, por terem entre seus diretores ou donos, mentes ainda presas ao passado, conservadores e retrógrados, acabam deixando a desejar no quesito, nadando contra a correnteza e não só não ajudando como atrapalhando o progresso.

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E o que nós, como consumidores LGBTs – que vivemos neste mundo capitalista – podemos fazer para nos ajudar, inibir atitudes do tipo e dar o nosso recado? Oras, deixar de gastar nosso suado pink money com as marcas que se posicionam contra a nossa existência, é óbvio.

Se somos número suficiente pra levar uma empresa a falência? Depende muito do segmento, é claro. Não a toa, LGBTs sofrem discriminação justamente por serem minoria em relação a maioria da sociedade. Mas certamente somos número suficiente pra criar uma mancha na reputação destas empresas, que dado o lado para o qual o vento sopra, terão muita dificuldade em se desfazer do passado vergonhoso no futuro, quando esta posição pró dignidade e igualdade já for um consenso (estamos claramente e felizmente caminhando pra isso).

Sendo assim, segue uma lista de marcas que já deram close errado com LGBTs pra que você pensar bem na hora de gastar seu suado dinheiro rosa, dando ele preferencialmente ao concorrente de marcas com histórico homofóbico. Que se não for pra gastar com quem nos apoia abertamente – como em empresas como Netflix, Uber, Ben & Jerry’s, Skky Vodka, Coca Cola, Google, Apple, Doritos, Skol, etc (aliás, vale uma matéria citando empresas que merecem nosso pink money, né? Vou providenciar) – que se gaste em quem nunca nos condenou, né?

RIACHUELO
Não tem muito tempo que foi noticiado o apoio do empresário Flávio Rocha, dono da rede de lojas de departamento Riachuelo, a candidaturas conservadoras e evangélicas na Câmara dos Deputados. Ligado à igreja Sara Nossa Terra, ele defende as bandeiras das igrejas na política em um Estado Laico onde vivemos.

Dentre as propostas a serem combatidas por estes grupos estão a criminalização da homofobia, o casamento homoafetivo como lei no Brasil e o ensino de diversidade, orientação sexual e identidade de gênero na educação pública afim de se prevenir o bullying homofóbico e consequente alto índice de evasão escolar entre LGBTs.

BARILLA

Uma das histórias mais famosas envolvendo marcas e homofobia data de 2013, quando Guido Barilla, presidente da fabricante de massas Barilla disse que nunca contrataria um gay pra fazer propaganda de sua marca: “Eu nunca faria um comercial com uma família homossexual… se os gays não gostarem, eles podem procurar outras marcas para comer”, disse ele na época.

Depois da repercussão negativa, ele tentou se desculpar, mas é claro que o carimbo de homofóbica já tinha colado na marca justamente. A Barilla acabou sendo alvo de tantos boicotes e críticas principalmente na Europa, que até hoje tenta limpar a imagem investindo em campanhas pró-diversidade e ressaltando iniciativas de empregabilidade LGBT entre seus funcionários.

Louvável reconhecer o erro, mas tem outras marcas pra a gente consumir, né manas? Fora que carboidrato já é bom consumir com moderação, carboidrato homofóbico então… jamais!

CENTAURO

Recentemente a rede de lojas de artigos esportivos viu seu nome queimado na Internet após o dono declarar apoio ao presidenciável e assumidamente homofóbico Jair Bolsonaro. Boicote mais do que justificado. Não que consumidores LGBTs vão fazer tanta falta no saldo final de uma loja dessas, a gente se veste melhor… mas já ajuda a queimar o filme de quem for consumir e estiver ao lado da luta das minorias por igualdade.

SUPERMERCADO HIROTA

A rede de supermercado Hirota foi flagrada distribuindo em suas unidades uma cartilha evangélica que condenava união entre pessoas do mesmo gênero, afirmando ainda que gays são “distorções da criação”.

O material, que também trazia mensagens sobre vários outros assuntos, foi escrito pelo pastor Hernandes Dias Lopes, da Igreja Presbiteriana, que o vendeu ao mercado, que decidiu pagar pela tiragem de 10 mil exemplares.

Após a polêmica, todas as cartilhas foram retiradas de circulação e a rede nunca se pronunciou a respeito. Bom passar longe, né gente? Vai que a validade dos produtos desse mercado tem a mesma data da mente de quem dirige? Deve ser tudo mofado e impróprio pra consumo…

SAPATOS VICTOR VICENZZA

Assim como o dono das redes Centauro, Victor Vicenzzo viu ruir a preferência do público LGBTs por seus sapatos estilosos e em numeração maior (por isso fazia tanto sucesso entre drags e mulheres trans) após declarar apoio público ao presidenciável e homofóbico Jair Bolsonaro.

Diversas personalidades famosas LGBTs encerraram parceria com o designer, como as drag queens Pabllo Vittar e Gloria Groove. Fora isso, Victor também viu suas redes sociais inundadas de críticas, fora o apoio de bolsominions que dificilmente consumirão sapatos plataforma tamanho 42.

DOLCE GABBANA

Em 2015, a grife italiana Dolce Gabbana foi alvo de boicote e declarações de repúdio por celebridades como Courtney Love, Ricky Martin, Ryan Murphy e Elton John. Tudo porque o dono da grife, Domenico Dolce e seu ex-marido Stefano Gabbana, se posicionaram contra a possibilidade de adoção de crianças por casais gays. “Somos contrários a adoção. A única família de verdade é a tradicional”, disse Domenico. Elton John, que é pai junto com seu marido, lembrou que técnicas como inseminação artificial e opções como a adoção beneficiam inclusive casais heterossexuais que se amam mas tem dificuldade em formar uma família biológica.

SERGIO K

A grife do estilista Sergio K deu um close erradíssimo em uma linha de camisetas onde se propunha a “zoar” torcidas e jogadores de futebol. Em uma das camisetas se lia “Maradona Maricon”, ou seja “Maradona é bicha” em espanhol incitando e eternizando ainda mais a homofobia justamente em um dos meios mais homofóbicos que existem, o do esporte. Perguntado sobre o assunto, ele afirmou que não é preconceituoso pois preconceito é incitar a violência. Pois bem, Sergio K, um homofóbico que ache divertido sair por aí chamando Maradona de maricon tem suas atitudes homofóbicas e consciência validadas em mensagens públicas como as das suas camisetas.

PURINA

Segundo noticiado pelo Huff Post, a companhia já se recusou a dar os mesmos benefícios aos cônjuges de funcionários em relações homoafetivas. A empresa também não garante políticas de respeito a identidade de gênero de seus funcionários.

CINEMARK

Eu sinceramente fiquei passado ao pesquisar e descobrir isso porque – como amante de cinema – sempre frequentei o Cinemark. Mas agora tenho uma desculpa melhor que a pipoca cheia de manteiga e gordura trans (delicioso, mas entope veia e mata) pra ir assistir filmes em outras redes ao menos sempre que possível.

Olha essa história: Antes da aprovação do casamento gay nos Estados Unidos, a empresa fez doações pela aprovação da “Prop 8”, uma emenda que impediria o casamento gay que já havia sido aprovado no Estado da Califórnia. Mesmo com pressão da mídia e da ameaça de boicote na época, a rede não se pronunciou sobre isso, justificando que “não seria apropriado que a empresa tentasse influenciar seus funcionários sobre questões fora do ambiente de trabalho”. Leia aqui na íntegra. Curiosamente, o lucro de filmes como Brokeback Mountain, Milk e Com Amor Simon eles nunca recusaram!

QUALQUER COISA DA RÚSSIA

Um país sem vergonha de assumir ser homofóbico, com um líder homofóbico e leis homofóbicas não merece que a gente gaste nosso pink money em taxas de importação e impostos com eles, né? Esqueça a tradicional vodka russa… escolha uma procedente de outro país, do próprio Brasil, ou ainda, uma outra bebida!

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Criador Põe na Roda, canal do youtube de humor e informação LGBT desde 2014, com mais de 100 milhões de visualizações e 800 mil inscritos. Autor do livro "Um Livro Pra Ser Entendido", que desmistifica questões do mundo gay e sobre ser LGBT para todos os públicos. Também foi roteirista de TV (Amor & Sexo, Adnight, CQC, Furo MTV) e colunista (Folha de S. Paulo).