Preconceito, falta de aceitação social, a não identidade de gênero, são algumas das várias questões que provocam uma série de problemas de saúde mental na população LGBT+. Passar anos de uma vida tentando ser alguém que ‘não se é’ tem consequências emocionais sérias e que podem causar transtornos de ansiedade e depressão. Em casos mais graves, o risco de suicídio é alto, pois o indivíduo não consegue enxergar uma saída.

A cada 40 segundos uma pessoa morre por suicídio no mundo, de acordo com a OMS (Organização Mundial de Saúde). E falar em suicídio não é falar sobre algo pesado, mas chamar atenção para uma questão de saúde pública. Pensando nisso, desde 2015, o mês de setembro é dedicado à prevenção e a construção de medidas saudáveis para discutir o tema, deixando de lado qualquer tipo de preconceito.

No relatório publicado na última segunda-feira(9), um dia antes do Dia Mundial da Prevenção ao Suicídio, celebrado na última terça-feira (10), a OMS divulgou que cerca de 800 mil pessoas morrem por suicídio a cada ano no mundo. A “violência auto-dirigida” é classificada pela OMS como a 14ª maior causa de morte. No entanto, a própria organização reconhece que um dos grandes entraves à prevenção do suicídio é, justamente, a dificuldade de identificá-lo como uma questão de saúde pública.

As taxas de suicídio foram 7% maiores no Brasil em 2016, último ano da pesquisa, do que em 2010. Índice global teve queda de 9,8%. A taxa de suicídios a cada 100 mil habitantes aumentou 7% no Brasil, ao contrário do índice mundial, que caiu 9,8%, alerta a OMS.

O suicídio entre o público LGBT aumentou quase quatro vezes em dois anos. Desde 2016, o Grupo Gay da Bahia (GGB) inclui o suicídio em seu levantamento de mortes violentas contra LGBTs. Naquele ano, foram 26 registros, contra 100 casos em 2018, um aumento de 284% no período. Entre LGBTs o risco de suicídio é 21,5% maior quando estes convivem em ambientes hostis à sua orientação sexual ou identidade de gênero.

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Não é preciso ter medo de falar sobre suicídio

Muitas vezes, o problema é estigmatizado e afasta o paciente da busca por ajuda profissional e até mesmo familiar. Porém, muitas vezes, o suicídio é evitável, já que mais de 90% dos casos de suicídio estão associados a questões de saúde mental. Em 36% das vítimas de suicídio, existe o diagnóstico da depressão.

“A morte natural ou por doenças é um acontecimento muito triste para a família, amigos e colegas. No entanto, é possível evitar os suicídios ”, disse o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus. .

Muitas pessoas ainda acham que falar sobre suicídio agrava ou estimula a situação. Porém, especialistas em saúde mental discordam. Na realidade, legitimar uma conversa responsável sobre o tema pode ajudar as pessoas a buscarem a ajuda adequada. E tudo começa por construir um espaço sem julgamentos em que o tema possa ser falado.

“Conversar abertamente sobre suicídio é importantíssimo e pode ajudar muito aqueles que estão em grande sofrimento psíquico e vendo a morte como uma alternativa para dar um basta ao seu sofrimento”, explicou a psicanalista Soraya Carvalho ao HuffPost Brasil.

“O ideal é que a pessoa seja escutada por um profissional especialista no assunto ou por voluntários do CVV, que recebem treinamento para abordar pessoas em risco de suicídio. Entretanto, a família, um amigo ou um professor podem ajudar muito sem que tenham um preparo especial para lidar com tal assunto, desde que sigam algumas recomendações básicas e fundamentais”, completa.

A prevenção ao suicídio

Mas como, então, ajudar na prevenção ao suicídio? Para a neurologista Elizabeth Bilevicius, da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), o primeiro passo é posicionar a depressão como uma doença e legitimar o que o paciente sente como um sintoma que pode ser trabalhado. ″É uma forma de encorajar sua busca por ajuda, criando um entorno social mais empático e mais bem informado para ajudar as pessoas”, explica a especialista.

Se você convive com a depressão ou conhece alguém próximo, um lembrete simples pode ser o mais importante de todos: é mais importante ouvir do que falar.

Parece simples, mas o desafio de quem quer acolher uma pessoa que está mergulhada em grande sofrimento é simplesmente não fazer julgamentos prévios, baseados em ideias como “quem ameaça não se mata” e “quem quer morrer não avisa”. Além disso, precisamos afastar as interpretações como “suicídio é um ato para chamar atenção, manipular, de fraqueza, de covardia, de coragem, de falta de fé, de Deus ou de amor” e também evitar os rótulos de que é “pessoa fraca” ou “desequilibrada”.

Lembre-se. Nunca minimize, desvalorize, compare, rotule, abandone, incentive ou desafie a pessoa que cogitou suicídio. Mas sempre busque levar a sério, escutando sem julgamento, oferecendo ajuda e acompanhando a dor do outro.

Caso você — ou alguém que você conheça — precise de ajuda, ligue 188, para o CVV – Centro de Valorização da Vida, ou acesse o site. O atendimento é gratuito, sigiloso e não é preciso se identificar.