O rápido desenvolvimento de várias vacinas para a COVID-19 fez vários comentaristas da web questionarem por aí por que o mesmo não foi feito para o HIV, uma pandemia que dura quase 40 anos a mais que o coronavírus.

No entanto, um olhar mais atento sobre as diferentes virologias do covid-19 e do HIV ajuda a explicar por que o primeiro tem uma vacina que logo estará amplamente disponível e o último ainda não, embora esteja no caminho e com resultados recentes promissores para isso em um futuro.

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Mas por que, afinal? Haveria uma conspiração mundial para que a cura ou vacina do HIV não seja descoberta ou lançada? Na Internet tem muito comentarista de portal (diga-se de passagem: especialistas em nada!) que diz que sim, mas não é bem assim.

Um artigo do portal LGBTQNation explicou essa história. Uma grande parte da razão pela qual uma vacina contra o HIV não foi desenvolvida ainda, de acordo com o Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, é que o vírus “sofre mutações rapidamente e tem maneiras únicas de escapar do próprio sistema imunológico do corpo”. São vírus completamente diferentes em sua infecção, comportamento, reprodução, etc.

Pra se ter ideia, atualmente os cientistas já descobriram cerca de 14 cepas diferentes do HIV! Comparativamente, existem pelo menos 6 cepas de coronavírus, mas neste caso, a taxa de mutação é bem mais baixa e o vírus mostra pouca variabilidade, tornando-se muito mais fácil desenvolver uma única vacina que combata todas suas variantes”, relatou a Reuters.

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“O HIV se insere em nosso DNA e permanece lá até que essas células morram, enquanto [o covid-19] não”, disse a virologista da Universidade da Austrália Ocidental, a professora associada Alison Imrie, à AFP, explicando outra diferença fundamental em como cada um opera no corpo.

A maioria das vacinas são desenvolvidas com base nas respostas imunológicas de pacientes recuperados, mas até agora, não há nenhum caso de qualquer pessoa HIV-positiva cujo sistema imunológico erradicou o vírus de seus corpos. E está aí uma diferença fundamental entre que torna o Covid muito mais fácil de se desenvolver uma vacina que o previna ou cure: há muitas pessoas que conseguiram desenvolver imunidade e superar a doença. Só nos Estados Unidos foram mais de 17 milhões de americanos que se recuperaram do COVID-19, fornecendo inúmeras respostas imunológicas para o estudo da vacina.

Muitas vacinas também usam formas inativadas ou enfraquecidas do vírus. Formas inativadas de HIV infelizmente não produziram nenhuma resposta imunológica durante os testes já realizados de vacinas, e os cientistas consideram muito perigoso introduzir uma forma enfraquecida do HIV no corpo, pois pode causar a soroconversão em uma pessoa HIV negativa, ou seja, torná-la uma pessoa que vive com HIV.

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A vacina COVID-19 não usa uma forma enfraquecida do vírus. Ele usa RNA mensageiro (mRNA) para fazer com que o corpo produza um pico de proteína que os vírus incorporam na superfície das células antes de se reproduzir. Quando o corpo reconhece a presença do pico, ele começa a produzir anticorpos para combater a infecção.

Os pesquisadores têm estudado proteínas de mRNA por décadas, de acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC). A proliferação de vírus respiratórios semelhantes na Ásia, como SARS e MERS, também tornou os pesquisadores mais familiarizados com os diferentes tipos de covid-19. E vacinas para essas doenças estão em desenvolvimento desde 2003, em parte devido à sua facilidade de transmissão e capacidade de infectar rapidamente milhões de pessoas.

Sem dúvida, é inegável que no último ano existiu um gigantesco esforço global sem precedentes para reunir recursos para o rápido desenvolvimento de uma vacina para o COVID-19, e esse rápido desenvolvimento incluiu “governos, cientistas, empresas, sociedade civil, filantropos e organizações globais de saúde”, bem como “investimentos financeiros e colaborações científicas sem precedentes ”, relata a Reuters, algo que não ocorreu na mesma escala para o HIV.

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Uma das vacinas do covid-19 desenvolvidas. (Foto: Divulgação)
Uma das vacinas do covid-19 desenvolvidas. (Foto: Divulgação)

Mas isso não significa que não haja esperança para uma eventual vacina contra o HIV. Na verdade, três experimentos diferentes recentes – ainda em ensaios – trouxeram esperança de que uma vacina contra o HIV pudesse estar disponível já em 2021. Essas vacinas usam vírus inofensivos para ajudar a fornecer informações genéticas do HIV para as células humanas e, em seguida, alterar as proteínas encontradas na camada externa das células do HIV para ajudar a desencadear respostas imunológicas.

Esses componentes da vacina podem ajudar o corpo a produzir bNAbs, anticorpos amplamente neutralizantes, que podem impedir que várias cepas de HIV infectem células humanas. Embora algumas pessoas façam bNAbs logo após serem infectadas pelo HIV, o vírus geralmente se replica muito rapidamente no corpo para que os bNAbs possam combater uma infecção.

Os pesquisadores estão examinando se infusões de sangue rico em bNAb ou vírus que transportam informações genéticas de bNAb podem ajudar o corpo a prevenir novas infecções por HIV.

Por hora portanto é torcer para que os recentes avanços nas pesquisas para vacina e/ou cura do HIV surtam efeito nas pessoas que estão sendo testadas em experimentos inclusive aqui no Brasil.

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Criador Põe na Roda, canal do youtube de humor e informação LGBT desde 2014, com mais de 150 milhões de visualizações e 1 milhão de inscritos. Autor do livro "Um Livro Pra Ser Entendido", que desmistifica questões do mundo gay e sobre ser LGBT para todos os públicos. Também foi roteirista de TV (Amor & Sexo, Adnight, CQC, Furo MTV) e colunista (Folha de S. Paulo).