É verdade que índices de clamídia, gonorréia e sífilis aumentaram nos últimos anos. E muitas vezes um argumento usado para isso (ainda que o número de usuários seja pequeno comparado à população geral) é o de que mais pessoas estão tomando PrEP, e isso faria com que o sexo sem preservativos acontecesse mais frequentemente, fazendo ISTs terem maior risco de acontecer. Você provavelmente já ouviu isso por aí, certo?

Pois o resultado de um novo estudo da University of New South Wales, na Austrália, afirma que este pode não ser o caso, ou que tal cenário atribuindo culpa ao remédio é no mínimo equivocado ou exagerado.

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O estudo acompanhou 2.400 homens que fazem sexo com outros homens e coletou dados de 54 clínicas de saúde sexual. Todos os rapazes foram monitorados por um período antes de iniciar a PrEP e, em seguida, enquanto tomavam a PrEP.

Aí que se descobriu que 50% dos homens testaram positivo para uma DST no ano anterior ao início da PrEP, enquanto 52% dos homens testaram positivo para uma DST no ano após tomar a medicação preventiva. A diferença de 2% não é estatisticamente significativa ou suficiente pra apontar um aumento devido a PrEP como causa, o que também pode ser explicado por outras tendências nas taxas de IST.

Os autores do estudo lembraram que as taxas de IST têm realmente crescido em países como a Austrália e os Estados Unidos, mas isso acontece desde muito antes da PrEP se tornar disponível. Portanto, outros fatores estão em jogo neste aumento.

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Uma das causas apontadas seria o aumento exponencial no uso de aplicativos de encontros, o que favorece uma sexualidade bem mais facilmente variada e também cortes financeiros em programas preventivos de saúde.

PrEP: 1 pílula por dia previne contra o HIV. (Foto: Reprodução)
PrEP: 1 pílula por dia previne contra o HIV. (Foto: Reprodução)

A PrEP, quando usada corretamente, é altamente eficaz para prevenir que alguém contraia o HIV. Em New South Wales, a taxa de HIV caiu cerca de um terço após uma rápida implantação ao longo de apenas 12 meses. No Reino Unido, a queda chegou a ser de 70% no número de novos casos de HIV após aderência de PrEP em larga escala.

“Nossos resultados indicam que os homens direcionados para a PrEP estavam em alto e crescente risco de ISTss antes de iniciar a PrEP”, disseram os autores do estudo. “Embora as razões para isso não estejam bem estabelecidas, elas foram relacionadas a aumentos nas relações anais sem preservativo e no número de parceiros sexuais”.

No entanto, isso não se deve à PrEP exclusivamente. A informação de que pessoas que vivem com HIV sob tratamento sejam indetectáveis – tendo zero risco zero de transmitir o vírus – é extremamente positiva pra acabar com estigma e preconceito, mas também levou a mais sexo sem preservativo, também não sendo essa uma causa principal, mas uma somatória disso tudo (aplicativos e a liberdade/variação sexual + pessoas em prep + pessoas que vivem com hiv sendo intransmissíveis)

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O estudo realizado afirma que o uso de preservativo já era instável antes da PrEP acontecer, como continuou depois na prática.

Outra descoberta importante foi de que os homens que tomavam PrEP mostraram um ligeiro aumento no número de vezes que foram a uma clínica para um check-up de saúde sexual. Isso traz benefícios para a saúde pública, pois significa que eventuais ISTs – lembrando que a maioria é assintomática e antes estariam expostos – são detectadas e tratadas precocemente, antes de manifestarem sintomas ou mesmo serem transmitidas a outras pessoas.

Os autores do estudo dizem que mais pesquisas precisam ser feitas para saber exatamente por que as taxas de IST estão aumentando, para não culpar a PrEP de maneira simplista e irresponsável, lembrando da necessidade de mais esforços para conscientizar principalmente a parcela de homens gays e bissexuais.

Um especialista em saúde sexual disse à Queerty que não ficou surpreso com os resultados.

“O motivo pelo qual não me surpreende é que os primeiros a adotar a PrEP geralmente são pessoas que já não usavam preservativos e, portanto, você já deve esperar que a incidência de DST seja bastante maior nesses homens”, disse o Dr. Will Nutland, um co-fundador do programa de distribuição do medicamento na Inglaterra, que fez campanha por um acesso mais amplo.

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Nutland disse ainda que a redução do uso de preservativos já vem acontecendo há vários anos. Ele também aponta que pessoas HIV + se tornam indetectáveis ​​por meio do tratamento (conhecido como ‘Tratamento como prevenção’ ou ‘Indetectável = não transmissível’) como um fator importante.

“Isso já está acontecendo. O Tratamento como Prevenção (TASP) teve um impacto na vontade e no desejo das pessoas de usar preservativos, e a PrEP também pode ter um impacto, mas dizer que TASP e PrEP são os únicos responsáveis ​​por esses aumentos é uma reação automática, e nós só temos para ver alguns dos outros fatores em jogo.”

Nutland aponta cortes no financiamento da saúde sexual e uma queda nas campanhas direcionadas aos gays na Inglaterra.

“Sabemos que os jovens gays estão deixando a escola sem conhecimento adequado sobre sexualidade, sem saber sobre transmissões de IST, questões de HIV… Sabemos que em algumas partes do país é muito difícil conseguir uma consulta clínica de saúde sexual e testes rápidos. Então diria que é um combo de fatores que vieram juntos e culminam no aumento de ISTs. Mas não é causa só da PrEP como afirmam por aí.”

Saiba mais sobre a PrEP nos vídeos abaixo:

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Criador Põe na Roda, canal do youtube de humor e informação LGBT desde 2014, com mais de 150 milhões de visualizações e 1 milhão de inscritos. Autor do livro "Um Livro Pra Ser Entendido", que desmistifica questões do mundo gay e sobre ser LGBT para todos os públicos. Também foi roteirista de TV (Amor & Sexo, Adnight, CQC, Furo MTV) e colunista (Folha de S. Paulo).