Paulinho Alves (PSL) é o nome do novo prefeito da cidade de Mariluz, no Paraná. Ele foi um dos únicos 2 prefeitos abertamente gays eleitos no Brasil em 2020 (o outro foi Diego Singolani pelo PSD em Santa Cruz do Rio Pardo/SP), conquistando 56,18% de um total de 3.533 votos válidos na cidade de pouco mais de 10 mil habitantes.

O que chamou mais atenção em sua eleição é que ele, mesmo tendo se candidatado por um partido da direita e que costuma ser anti-pautas progressistas politicamente e apoia em peso o presidente Bolsonaro, é gay e inclusive casado.

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Mas nem sempre sua vida foi fora do armário como é hoje. Paulinho Alves falou ao Põe Na Roda sobre seu processo de autoaceitação: “Tenho 49 anos e só me permiti viver uma experiência homossexual aos 38, embora desde adolescência já tivesse percebido minha natureza. Cheguei a tentar suicídio duas vezes aos 14 anos! Só permiti me aceitar com quase 40 anos de idade”.

Católico praticante, Paulo Armando Da Silva Alves – como é seu nome completo – foi membro da Renovação Carismática de sua cidade por 25 anos enquanto vivia sua sexualidade sem que ninguém soubesse.

Seu relacionamento com o marido já dura 6 anos: “Eu fazia tudo escondido e dizia pra ele que só me assumiria publicamente ao sair da prefeitura, já que fui eleito com os eleitores achando que eu era hétero. Prezava muito pelo voto de confiança que me deram ao me eleger e temia desapontá-los”.

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Paulinho Alves em campanha em 2020. (Foto: Reprodução / Facebook)

Tudo mudou quando, muito antes de integrar o PSL, Paulinho Alves deixou a prefeitura 4 anos atrás, após governar a cidade por 2 mandatos, totalizando 8 anos no comando. Paulinho Alves decidiu que era hora de deixar de viver sua sexualidade escondido, se assumindo perante a sociedade: Passamos a morar juntos, viajamos, postamos fotos dos dois publicamente…”, contou, explicando que a aceitação foi acontecendo naturalmente nos círculos em que frequentavam entre amigos e família.

Entretanto nem tudo foram flores. Em virtude dele ter se assumido publicamente, a Igreja o impediu de continuar no grupo de Renovação Carismática e também de ser Ministro da Eucaristia, duas atividades que muito o agradavam. Foi o tempo livre da igreja que fez ele decidir voltar a se dedicar à política e se candidatar novamente à prefeitura de Mariluz, só que desta vez, fora do armário: “Em uma cidade de 10 mil habitantes, todo mundo sabe, né? E felizmente maior parte me respeita!”.

Durante a campanha, aconteceram episódios de homofobia por parte da oposição sim, mas nada de muita gravidade: “Não mexi com a vida pessoal de ninguém, enquanto eles questionavam a minha. Mas os próprios apoiadores já respondiam e maior parte da população felizmente entendeu que o que importa é o meu trabalho e meu coração, e não minha sexualidade!”, explicou Paulinho. A aprovação de sua gestão de 8 anos na prefeitura, de 2009 a 2016, foi superior a 80% e garantiu sua terceira eleição agora com mais da metade dos votos válidos do município.

Paulinho Alves em campanha em 2020 (Foto: Reprodução / Facebook)
Paulinho Alves em campanha em 2020 (Foto: Reprodução / Facebook)

Mas será possível ser gay e estar em um partido conservador de direita como o PSL? Paulinho Alves acredita que sim: “Eu sempre falo que todos os partidos tem gente boa e gente ruim. Não defendo bandeira de partido, defendo ser humano, defendo pessoas. Não voto por direita ou esquerda, eu voto em uma pessoa porque acho que os ideais políticos dela vão ao encontro do que eu penso, estando em comunhão com a história de vida da pessoa. Em campanha, todo mundo é bom. Temos que olhar a trajetória, história de vida da pessoa”.

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Ex-PSDBista, partido pelo qual foi prefeito de Mariluz em 2 mandatos seguidos, a escolha de Paulinho pelo PSL no retorno à política em 2020 não foi exatamente por questões ideológicas ou partidárias: “Infelizmente, estamos em um país onde ser base de um governo estadual ou federal contribui pra angariar recursos para um município. Fui do PSDB por 8 anos durante as duas gestões em que fui prefeito. Saí do partido com intenção de deixar a política e não me candidatar mais. Ao mudar de ideia, ia me candidatar pelo o PSC, partido do Governo do Estado no intuito de angariar recursos ao município mais facilmente. Como não consegui o PSC, tentei o partido do presidente da república, o PSL.”

Paulinho Alves no passado, quando era filiado ao PSDB. (Foto: Reprodução / Facebook)
Paulinho Alves no passado, quando era filiado ao PSDB. (Foto: Reprodução / Facebook)

E como se sabe, o PSL é um partido que apoia em peso o presidente Jair Bolsonaro (e pelo qual ele se elegeu antes de deixar a legenda e ficar sem partido). A sigla é extremamente rejeitada por maior parte dos LGBTs e eleitorado progressista em geral, dado o vasto histórico de declarações consideradas LGBTfóbicas, misóginas e racistas pelas quais Bolsonaro já respondeu até processos na justiça. O quadro do partido inclusive está repleto de políticos bolsonaristas que pensam nesta mesma linha ideológica.

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Mesmo assim, Paulinho Alves diz apoiar Bolsonaro: “Mesmo sendo gay, votei no Bolsonaro. Vejo nele uma pessoa de pulso. Acho que em algumas questões ele realmente é muito radical e eu pessoalmente não acredito que seja bem por aí o caminho. Acredito que a diversidade nos edifica e nos constrói. Minha opinião pessoal é de que devemos respeitar as pessoas sendo felizes como são. Eu nasci gay, não pedi e nem virei. É minha natureza desde quando nasci. E penso que, se Deus permitiu que eu assim nascesse, é porque ele me ama como eu sou”.

Católico, Paulinho Alves lembrou que se inspira em Madre Teresa de Calcutá, de quem é devoto: “Sou muito fã da Madre Teresa de Calcutá e acredito no que ela pregava: o amor é a base de tudo. Independente de ser gay, hétero, preto, branco, independente de condição financeira… Quem ama com o coração de Cristo sem olhar todas essas diferenças, atinge a plenitude do amor. Sempre quis ser a voz dos que não tem”.

Paulinho Alves finaliza ressaltando novamente ser uma pessoa sem radicalismos ou fanatismos: “Não sou fanático ou extremista em nenhum sentido, nem de defender a direita ou a esquerda. Não tenho radicalismo e nem acredito que essa postura nos ajude a atingir nossos objetivos”.

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Criador Põe na Roda, canal do youtube de humor e informação LGBT desde 2014, com mais de 150 milhões de visualizações e 1 milhão de inscritos. Autor do livro "Um Livro Pra Ser Entendido", que desmistifica questões do mundo gay e sobre ser LGBT para todos os públicos. Também foi roteirista de TV (Amor & Sexo, Adnight, CQC, Furo MTV) e colunista (Folha de S. Paulo).