O prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), disputa agora em 2020 a reeleição pelo comando da prefeitura da maior cidade da América Latina. São Paulo é uma metrópole extremamente diversa e uma das provas disso é que sedia a maior Parada LGBT do mundo, além de ter programas pioneiros na administração pública.

Alguns exemplos são o Transcidadania (criado pelo ex-prefeito Fernando Haddad), além de ambulatório especializado em pessoas trans, programas de saúde para prevenção e tratamento de HIV que tem maior distribuição e melhor funcionamento que no restante do país (pra se ter ideia, 40% da distribuição de PrEP do Brasil – iniciativa que fez o número de novos casos de HIV cair cerca de 20% em São Paulo – está na capital), um – ainda que modesto – Museu da Diversidade, e por aí vai.

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É verdade que em seu governo e posicionamentos políticos até hoje, Bruno Covas se mostrou um prefeito aliado da comunidade LGBT. Mas agora, sua reeleição pode estar representando uma verdadeira ameaça aos cidadãos LGBTs de São Paulo. Mas de que modo?

Acontece que o candidato a vice-prefeito em sua chapa é o vereador Ricardo Nunes, do MDB. Conservador, o político é ligado à Igreja Católica, integra a “Bancada da Bíblia” e foi ferrenho divulgador de falácias da extrema-direita como “ideologia de gênero”.

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Vale lembrar aqui que “ideologia de gênero” é algo que nunca existiu, sendo apenas uma expressão inventada por conservadores para desqualificar discussões que propõe que diversidade seja abordada no ensino público, afim de prevenir casos de bullying, discriminação, evasão escolar, gravidez adolescente, abuso sexual, dentre outros graves problemas enfrentados por estudantes.

Bruno Covas e militantes LGBTs (Marcelo Gallego, Ricardo de Souza Franco, Antonietta Varlese, Bruno Covas, Tchaka, Eloisa Arruda e Ivan Batista) na Campanha ReSPeito, focada na comunidade LGBT (Foto: Reprodução)
Bruno Covas e militantes LGBTs (Marcelo Gallego, Ricardo de Souza Franco, Antonietta Varlese, Bruno Covas, Tchaka, Eloisa Arruda e Ivan Batista) na Campanha ReSPeito, focada na comunidade LGBT (Foto: Reprodução)

Desde os impeachments de Fernando Collor – quando ascendeu ao poder Itamar Franco – e também Dilma Rousseff – quando tomou seu lugar o seu então vice e vira-casaca Michel Temer – sabe-se da importância do cargo de vice no Brasil. Mesmo assim, maior parte das pessoas vota sem essa consciência.

Está longe deste artigo desejar qualquer mal à Bruno Covas (pelo contrário, caso ganhe a eleição, que tenha toda saúde pra concluir seu governo!). Mas tendo enfrentado um grave câncer recentemente, no caso de algum problema de saúde ou mesmo morte, quem ficará no comando da Prefeitura de São Paulo é Ricardo Nunes.

Além disso, é muito comum em políticos do PSDB, deixar o governo da cidade para tentar a eleição ao governo após dois anos no cargo. Foi assim com José Serra e mais recentemente com João Dória, atual governador do Estado. Portanto, é extremamente importante que se atente a quem é o vice de Bruno Covas.

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A escolha de um nome conservador para a chapa foi uma decisão do PSDB para conseguir apoio da ala conservadora da política. Com a aliança (que inclui além do MDB, PSD, Podemos, PSC, PP, PL, Pros, Cidadania e PV), o PSDB conseguiu também maior tempo de TV para a campanha de Bruno Covas.

Em 2015, quando se debatia o felizmente finado projeto “Escola Sem Partido”, ao estilo ignorante e escandaloso da extrema-direita de ser, Ricardo Nunes subiu em um carro de som ao lado de padres, para denunciar a suposta “ideologia de gênero”. Novamente, se trata de uma falácia inventada pra se minimizar a importância da inclusão de temas como sexualidade e diversidade no ensino público.

Segundo uma reportagem da Folha de São Paulo, Bruno Covas queria inicialmente como vice, seu secretário, Ricardo Tripoli, mas por pressão de Dória, o PSDB cedeu e evitou desgastes, oficializando Ricardo Nunes como vice do prefeito de São Paulo candidato à reeleição.

Vice de Covas luta contra 'ideologia de gênero' e tem influência em modelo de creche sob investigação. (Foto: Reprodução / Folha de São Paulo)
Vice de Covas luta contra ‘ideologia de gênero’ e tem influência em modelo de creche sob investigação. (Foto: Reprodução / Folha de São Paulo)

O conservadorismo de Ricardo Nunes é visto como estratégia para atrair eleitores da direita. Ainda assim, aliados de Covas afirmam que Nunes se comprometeu a não se opor às políticas do prefeito e “nem se deixar levar por questões ideológicas”.

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Agora em 2020, Ricardo Nunes foi acusado de violência doméstica contra a esposa. Ao ser confrontado quanto esta história vazou recentemente, o prefeito e atual candidato à reeleição, se limitou a dizer sobre as acusações ao seu vice: “É inaceitável a violência contra a mulher. Nunes deve esclarecer as acusações”, afirmando que viu a gravação de alguns vídeos com manifestações de Nunes e dizendo que nada aconteceu a não ser um desentendimento dele com a esposa.

Além de tudo e como se não bastasse, Ricardo Nunes vem sendo investigado por suspeita de envolvimento na máfia das creches em São Paulo, segundo noticiou a Folha de São Paulo.

Vale tudo no jogo eleitoral? Como fica uma cidade progressista e diversa como São Paulo caso Bruno Covas tente uma eleição a governador daqui 2 anos? Ou se tiver algum problema de saúde e Ricardo Nunes tiver que assumir a administração em seu lugar?

De acordo com as pesquisas, o atual prefeito é o favorito a eleição enquanto todas estas perguntas continuam sem resposta e boa parte do seu eleitorado não faz ideia do risco que corre caso Bruno Covas não conclua seu mandato.

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Criador Põe na Roda, canal do youtube de humor e informação LGBT desde 2014, com mais de 150 milhões de visualizações e 1 milhão de inscritos. Autor do livro "Um Livro Pra Ser Entendido", que desmistifica questões do mundo gay e sobre ser LGBT para todos os públicos. Também foi roteirista de TV (Amor & Sexo, Adnight, CQC, Furo MTV) e colunista (Folha de S. Paulo).