Contando um vice fundamentalista religioso e fazendo acenos pra conseguir apoio de partidos conservadores de direita, chamou atenção o fato do programa de governo do candidato a reeleição à prefeitura de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), não ter qualquer menção à população LGBT. Isso se tratando da cidade mais diversa do país, onde também ocorre a maior Parada LGBT do mundo (que vale lembrar, é o evento que traz mais dinheiro à cidade anualmente após a Fórmula 1).

Na contramão do adversário tucano e sem um vice que coloque em risco programas pró-diversidade de São Paulo e que são exemplo por todo o Brasil (como o Transcidadania por exemplo, Museu da Diversidade ou a maior distribuição de PREP na saúde, para citar algunas iniciativas), o candidato do PSOL, Guilherme Boulos, cita sem medo LGBTs em seu programa de governo. No total, contabilizamos 39 vezes.

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Se quiser, acesse aqui para ler o programa de governo de Guilherme Boulos na íntegra. Abaixo citamos todas as vezes em que o documento com as diretrizes do possível futuro governo cita a população LGBT em diversas áreas como saúde, cidadania, segurança, moradia e saúde.

“É a partir do poder popular que São Paulo vira a cidade de resistência ao racismo, ao machismo e à LGBTfobia”. Assim acontece a primeira citação a LGBTs no programa de governo do candidato do PSOL, na página 3. Em uma coluna seguinte também há menção quando se fala no projeto “Centros do Futuro”: “Espaços que serão construídos em bairros da periferia e que atenderão aos interesses da juventude, das mulheres e do público LGBTI+, oferecendo cursos de capacitação, inclusão digital e perspectiva de uma vida mais digna”.

Falando sobre segurança pública e a falta de preparo para se lidar com crimes de discriminação, o programa promete: “Os profissionais da Guarda Civil Metropolitana – atuais e novos, que serão contratados – receberão capacitação para inibir a violência contra mulher, combater o racismo e a lgbtfobia.“

Mais adiante, na página 8 fala-se sobre assistência social e centros de acolhimento: “Implantar unidades de acolhimento institucional conforme tipificação socioassistencial do SUAS para grupos familiares e casais, pessoas com deficiência, pessoas LGBTI+, idosos com autonomia ou com dependência”.

Boulos em Debate sobre “Defesa da Democracia”. (Foto: Sabrina Silva/Divulgação)
Boulos em Debate sobre “Defesa da Democracia”. (Foto: Sabrina Silva/Divulgação)

Na página 11, quando começa a debater Cultura, o programa de Boulos novamente fala na população LGBT: “A cultura como direito e não como negócio inverte prioridades e faz emergir novos processos e protagonistas na produção social: cultura das periferias, urbana, de matriz africana, indígenas, de hackers, das mulheres, LGBTI+. O Estado deve ser o agente de interesses públicos capaz de defender o que, na vida simbólica das sociedades, não pode ser comercializado.”

Sobre educação, também sabemos a importância de se prevenir a LGBTfobia desde cedo, ainda na educação. Na página 18 isso é debatido: “Uma educação antirracista, feminista, anti-lgbtfóbica, anticapacitista e ecossocialista. E a referência da gestão será o legado de Paulo Freire à frente da Secretaria Municipal de Educação durante o governo de Luiza Erundina (1989-1993).”

Parada LGBT de São Paulo, a maior do mundo. (Foto: Reprodução)
Parada LGBT de São Paulo, a maior do mundo. (Foto: Reprodução)

Ainda sobre educação, na página 20, a candidatura de Boulos compromete-se: “Defender a educação crítica e transformadora. Uma escola que seja espaço de debate livre e franco de ideias, numa perspectiva plural, com temas que digam respeito ao bem viver e que combatam o preconceito contra mulheres, negros, indígenas, pessoas com deficiencia e população LGBTI+”.

O mesmo se observa na página 26: “Assegurar no Plano Municipal de Educação o respeito à diversidade sexual e de gênero e à população LGBTI+ no ambiente escolar e na capacitação de professoras e professores;”

Já o programa “Pacaembú Inclusivo”, que traria outras possibilidades ao Estádio do Pacaembú como espaço público, além dos raros jogos que sedia, o programa propõe: “Utilizar o Pacaembu como palco para partidas e torneios de futebol de mulheres e outras modalidades esportivas da diversidade, bem como com equipes mistas, como instrumento de combate ao machismo, ao sexismo e à lgbtfobia;”

Na mesma página 22, as diretrizes de Boulos falam sobre população LGBTI+ em Esportes: “Esporte e lazer para o público LGBTI+, com: Organizar equipes esportivas nos Centros de Cidadania LGBTI+ conforme demanda regional”.

Na página 27 vem um capítulo exclusivo sobre a questão LGBTI+, lembrando ali que o Brasil é um dos países que mais mata por LGBTfobia e que a expectativa de vida de uma transexual em São Paulo é de 35 anos de idade: “Para enfrentar essa lógica de violência e opressão, é preciso desenvolver políticas públicas que garantam direitos básicos a essa população”, lembra o programa de governo, que no mesmo trecho ressalta que casos de depressão e suicídio são muito mais frequentes entre a população LGBTI+ pelo estigma e preconceito que sofrem da sociedade.

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Ainda na página 27, há propostas de Boulos para saúde LGBT: “Criar ambulatórios LGBTI+, com atendimento de profissionais da saúde; • Implementar políticas sanitárias específicas para pessoas LGBTI+, considerando exames e prevenção de ISTs; 27 • Elaborar política pública municipal de saúde da população LGBTI+; • Ampliar os cursos de formação voltados para a pauta LGBTI+ destinados a profissionais da saúde”.

Ex-prefeito Fernando Haddad transformou a vida de travestis e transexuais com o programa Transcidadania (Foto: Reprodução)
Ex-prefeito Fernando Haddad transformou a vida de travestis e transexuais com o programa Transcidadania (Foto: Reprodução)

Quanto a moradia, o programa de Boulos também lembra a população LGBTI+ na página 28: “Criar abrigos para população LGBTI+ com atendimento de saúde e encaminhamentos para empregos em unidades centrais e periféricas; • Criar parcerias com casas de acolhimento organizadas por pessoas LGBTI+; • Retomar a relação entre a Prefeitura e a Casa de Apoio Brenda Lee, transformando-a novamente no espaço de acolhimento e atendimento à população LGBTI+ soropositiva.”

Sabe-se também da dificuldade gigantesca que é para pessoas trans conseguirem formação e colocação profissional. Na página 28, há em Educação: “Criar espaços e cursinhos populares pré-vestibular voltados para pessoas LGBTI+ em parceria com movimentos sociais; • Campanha de conscientização dos direitos LGBTI+ e do acesso igualitário da população, assim como desenvolvimento de políticas públicas para o combate à violência lesbo/homo/bi/transfóbica; • Campanhas de prevenção (de ISTs, suicídio, entre outras).”

Mas também é preciso lidar com o problema do preconceito no mercado de trabalho, o que se debate logo adiante no documento de Boulos: “Criar um programa para garantir emprego para a população LGBTI+ (com cota para a população T), com contratos e alternativas de rescisão caso a empresa não cumpra com sua parte; • Criar comitê permanente para acompanhar os contratos e a situação das pessoas LGBTI+ admitidas por empresas parceiras da Prefeitura; • Incluir programa de contratação de pessoas trans e travestis que tenham sido contempladas no TransCidadania, assim como instituição de Feiras Municipais de Empregabilidade Trans; • Instituir cursos de preparação para os servidores e empregados públicos do município para que estejam preparados para atender/lidar com pessoas LGBTI+;”

Na área segurança, também é lembrada a necessidade de treinamento e atendimento especializado em delegacias para crimes de LGBTfobia: “Atendimento especializados em delegacias/postos de atendimento de guardas municipais voltados para a população LGBTI+ vítima de discriminação;”

Mais adiante, na página 34, há outra menção sobre LGBTs em propostas sobre Migração: “Promover o acesso e difundir informação para migrantes sobre direitos das mulheres e de pessoas LGBTI+”.

E em saúde e assistência social na página 47: “Criar, ampliar e reformular serviços especializados a públicos como famílias (parentais ou não), LGBTI+, casais com e sem filhos, migrantes, egressos do sistema prisional, pessoas em sofrimento mental, trecheiros, pessoas com animais e carroceiros;”

No capítulo 19, página 49, o programa fala sobre saúde e novamente cita LGBTs dentre outras minorias: “Deste Programa de Saúde se baseia na garantia e melhoria das condições de vida e acesso para a população periférica, bem como no combate às desigualdades históricas na distribuição de recursos para a saúde ao fortalecer a Atenção Básica de um SUS público, gratuito, universal e que se organize considerando as particularidades de atendimento às mulheres, pessoas com deficiências, LGBTI+, negras, negros e indígenas”. Do mesmo modo somos citados em “Segurança e Direitos Humanos” na página 53 e na página 55.

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Vice de Bruno Covas, Ricardo Nunes, tem histórico de LGBTfobia e acusações de agressão à esposa e corrupção. (Foto: Reprodução)
Vice de Bruno Covas, Ricardo Nunes, tem histórico de LGBTfobia e acusações de agressão à esposa e corrupção. (Foto: Reprodução)

Vale lembrar que ainda ontem (26), ao ser questionado por um jornalista porque seu plano de governo não continua qualquer menção à população LGBTI+, o adversário político de Guilherme Boulos, Bruno Covas (PSDB), afirmou que poderia sim incluir a questão, sem detalhar como a quatro dias das eleições.

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Criador Põe na Roda, canal do youtube de humor e informação LGBT desde 2014, com mais de 150 milhões de visualizações e 1 milhão de inscritos. Autor do livro "Um Livro Pra Ser Entendido", que desmistifica questões do mundo gay e sobre ser LGBT para todos os públicos. Também foi roteirista de TV (Amor & Sexo, Adnight, CQC, Furo MTV) e colunista (Folha de S. Paulo).