Em um post bastante elucidativo sobre um estudo que liga o aumento de transtornos como depressão e ansiedade entre LGBTs com o uso de aplicativos focados em sexo instantâneo, como é o caso do Grindr e maior parte dos aplicativos de encontros gays, o portal Cocktails & Cocktalk refletiu sobre a questão contemporânea de maneira bastante necessária entre a comunidade LGBT, ou principalmente a letra G.

Depois que um artigo recente publicado pela Vox em 2018 surgiu fazendo a ligação primeiramente, o debate sobre quem é responsável pela saúde mental dos usuários do Grindr foi questionado.

O artigo, escrito originalmente por Jack Turban, um psicólogo gay, faz uma analogia observando que orgasmos seriam como crack e, portanto, Grindr – ou outros aplicativos de encontro como Hornet, Scruff, etc – seriam as “máquinas caça-níqueis” que alavancam um mecanismo de intervalos e recompensas em usuários que se viciam neste comportamento.

Mas é a comunidade gay que está abusando de uma plataforma que pode – e geralmente é – ser usada para sexo casual saudável? Ou é a plataforma que construiu uma armadilha, na qual homens gays – que estatisticamente já têm maior probabilidade de sofrer de problemas de saúde mental, autodestruição e dependência – provavelmente caem?

É um debate complexo, que foi discutido no podcast gay e gringo “Cocktails & Confessions”. Eles consideraram que os gays que usam outros aplicativos, como o Tinder e o Chappy – que são comercializados como aplicativos de ‘relacionamento’ – não sofrem a mesma quantidade de ansiedade e depressão que os do Grindr ou outros aplicativos focados mais no encontro sexual imediato.

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O aplicativo foi projetado deliberadamente para facilitar as conexões, como os antecessores de desktop Gaydar e Manhunt; (a localização de outros usuários, o potencial de anonimato, perfis sem rosto e a opção de selecionar “Agora” sobre o que você está procurando para alívio rápido naquele exato momento). Naturalmente é mais fácil se tornar viciado em tecnologia com smartphones e celulares de hoje em dia resolvendo tudo a todo momento e claro que é ainda mais fácil no que diz respeito a aplicativos sexuais, unindo dois vícios.

O Grindr sabe que há uma demanda por sexo instantâneo e, embora isso não seja algo que eles inventaram, é algo que estão incentivando e até monopolizando. E executivos que estão no topo de um império de bilhões de dólares devem ter um nível de responsabilidade pelo que estão lançando no mundo e sobre a saúde mental de seus usuários.

Claro, eles não precisam, mas deve ser uma obrigação moral, porque, embora todos precisemos assumir responsabilidade por nós mesmos e por nossas próprias ações, as empresas também têm o dever de cuidar de seus clientes.

Oras, se você vender produtos defeituosos que resultaram em ferimentos a um cliente, você será processado obviamente. Mas e o dano emocional? Da mesma forma, se você vender remédios a pessoas sem informar sobre os efeitos colaterais, sua licença será retirada.

E enquanto discutimos segurança, segurança psíquica e física são assuntos que devem ser tratados com atenção, o que infelizmente pouco acontece.

Uma rede determinada pode facilmente colocar uma barreira na sua Internet para impedir que você assista pornografia e o carregamento da tela do Grindr. Por que então o aplicativo não pode fazer algo semelhante até que a idade do usuário seja verificada? Alguns menores de 18 anos sempre encontrarão uma maneira de contornar isso, mas um obstáculo ou filtro mais difícil de ser penetrado poderia ter impedido alguns dos crimes sexuais menores de idade que ocorreram no passado através destes aplicativos. E, como Scanlon menciona, permitir o anonimato aumenta o risco de segurança.

Ele então continuou seu raciocínio: “Entendo que, quando você tem uma personalidade mais suscetível à vícios, baixa auto-estima e um pau de 20 cm (sem mencionar o sexo químico), Grindr pode ser um reino desejável de escapismo. Como mencionado, nosso próprio bem-estar é principalmente o nosso próprio negócio, portanto, embora sempre devamos procurar garantir a estabilidade de nossa própria saúde mental, é importante levar em consideração que as pessoas LGBT são mais propensas a sofrer de transtornos como ansiedade, depressão e dependência. Até 50% de nós já experimentaram depressão estatisticamente principalmente pelos transtornos e pressões que já vivemos vivendo no armário ou lidando com questões como a rejeição e o medo da não aprovação, diferente do restante da população que não lida com isso tão constantemente no cotidiano”.

“Pessoalmente, eu não sou alguém viciado em Grindr, ou que já foi, mas vivenciei uma fase em que o uso do Grindr se tornou particularmente desagradável. Durante o qual eu apaguei o aplicativo, trabalhei na minha autoestima e estabeleci barreiras mentais para usá-lo sem ser mastigado e cuspido (a menos que fosse o que eu estava desejando naquele dia). Por exemplo, parei de conhecer pessoas com quem só tinha falado uma vez, porque isso não me dá tempo suficiente para decidir se é seguro encontrá-las. Não espero encontrar um relacionamento lá, porque todos os homens que levam a sério isso usam outros aplicativos; então, quando estou procurando encontros, vou para outro lugar. São mudanças de atitudes simples”, disse Turban, o apresentador do poças Cocktails & Confessions sobre como lidou com o assunto em sua vida.

Quando se trata de culpa, talvez seja ingênuo colocá-la em uma grande empresa como o Grindr. Quando eles se importaram com nossos dilemas e questões de saúde pessoais? Quanto devem? Na realidade não tem obrigação, mas certamente há melhorias que podem ser feitas, como sugere Turban, como com pequenas intervenções como a publicidade de recursos de saúde mental no aplicativo. Tudo isso pode ajudar o usuário a se conscientizar e lidar com seu sofrimento.

Mas, finalmente, em algum momento, precisamos reconhecer nossos próprios comportamentos tóxicos, porque isso é algo sob nosso controle e somos os únicos que tem poder de decisão.

Talvez então, como sugerido, se houvesse mais informações disponíveis sobre como realmente quebrar este ciclo, ou explicações sobre como alguém fica preso nele, para começar, talvez aí já fosse mais fácil para as pessoas escaparem disso.

Fonte: Cocktails and Cocktalk

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Criador Põe na Roda, canal do youtube de humor e informação LGBT desde 2014, com mais de 150 milhões de visualizações e 1 milhão de inscritos. Autor do livro "Um Livro Pra Ser Entendido", que desmistifica questões do mundo gay e sobre ser LGBT para todos os públicos. Também foi roteirista de TV (Amor & Sexo, Adnight, CQC, Furo MTV) e colunista (Folha de S. Paulo).