A empresária Lela Gomes, de 34 anos, contou ao Universa como sonhou durante 20 anos com um bar voltado ao público lésbico e ele precisou fechar após quatro dias devido a pandemia de coronavírus.

Lela conta que a ideia de fazer o Boleia surgiu aos 14 anos, ao assistir o filme “Show Bar”. Com 16 anos ela se identificou como lésbica e criar um espaço voltado ao público ganhou ainda mais força.

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“Eu sempre via mulheres lésbicas reclamando que faltava lugar para elas, que os gays acabavam tomando os espaços voltados para o público LGBT. Sei que teve nos anos 80, até o início dos anos 2000 um lugar ou outro no Rio muito frequentado pelo público lésbico, mas eram lugares que a gente tomava para gente, porque os lugares LGBT mesmo acabavam sendo dominados pelos homens gays”, contou Lela.

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A empresária conta que a iniciativa para criar o bar ocorreu em 2019, após 20 anos de sonho, quando viu os retrocessos que o Brasil estava passando. “Pelo retrocesso que a gente estava vivendo, além de ser um bar, o espaço seria um ato político e um espaço seguro para as mulheres. Eu pensava na segurança dessas clientes e gostaria que elas pudessem estar ali dentro e beijar outras mulheres em paz, sem assédio. Um lugar em que não coubesse nenhum tipo de preconceito”, explicou.

“Procurei muito até encontrar o espaço certo, fui a uns 10 lugares, até que falei: pronto: é este aqui. Para idealizar o lugar, eu trabalhei também com uma arquiteta lésbica e uma outra arquiteta mulher. Só que a gente não achava muita referência. O que eu sabia é que queria um lugar muito instagramável para gerar burburinho nas redes.”

“Desejava que fosse um bar que tivesse tudo que sapatão gosta: sinuca, karaokê, cerveja de garrafa.”

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Lela revelou que queria uma equipe diversificada no bar, que representasse as várias mulheres: “Mulheres bis, lésbicas e transexuais e queria que essa equipe tivesse gordas, negras, andróginas, que não performam feminilidade ou que tivesse mais estereótipo de sapatão também. Cada pessoa que trabalha lá representa alguém que está lá dentro. Por isso eu escolhi muito bem essa equipe.”

A abertura oficial do local ocorre em 8 de março, no Dia Internacional da Mulher, mas quatro dias depois veio a notícia de que iriam precisar fechar temporariamente devido a expansão do coronavírus.

“Me preocupei mais com as pessoas, com a saúde das clientes, das funcionárias, com a minha, com a aglomeração, então não senti tanto o baque [financeiro], estava muito preocupada com aquilo tudo. Conforme o tempo foi passando, eu fui sentindo. Sonhei 20 anos com isso, fiquei 4 dias abertos e fechei. Mas confio muito no meu público”, relatou Lela.

“Nesses quatro dias, o bar teve uma história muito intensa, como dizem que é coisa de sapatão mesmo. A gente atingiu lotação máxima do momento que abriu, no primeiro dia, até o momento que fechou, no último, com filas enormes na porta e a galera esperando para entrar. Foram quatro dias históricos” contou a proprietária.

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“Vi muita sapatão de todas as tribos, o que me emocionou muito. Tinha sapatão de 50 anos em uma mesa, as crossfiteiras, as patricinhas, as da política e todo mundo interagindo, juntando mesa. Também vi muito date.”

“Não dizem que sapatão casa rápido? Acho que com o Boleia foi assim o casamento. Mesmo que de vez em quando bata uma bad, uma saudade muito grande, confio: o Boleia vai voltar e vai ser lindo”, afirmou Lela.

Foto: Arquivo pessoal/ reprodução Universa