Ainda é uma novidade, mas um levantamento mostrou que cresce o número de pais que cria e educa seus filhos desde bebê em um gênero neutro, deixando a criança descobrir e decidir seus próprios gostos e identidade. Em inglês já há inclusive um nome para estes babies: “theybies”.

Em 2011, um casal de Toronto, no Canadá foi notícia ao revelar decidiu criar seu filho, Storn, sem revelar seu gênero. De lá pra cá, começa a se tornar realidade entre outros casais, a decisão de pais adotarem o mesmo tipo de educação com seus filhos. Mas quais seriam os motivos e como isso funciona?

Criar seu filho em um gênero neutro significa apresentar o mundo às crianças tentando influenciá-las minimamente conforme as expectativas do sexo biológico, deixando elas decidirem seus gostos, brinquedos, roupas e se comportarem naturalmente conforme realmente forem de fato.

Muitos meninos podem gostar de cozinhar ou de ballet, ou meninas podem preferir esportes mais agressivos, roupas ou brincadeiras vistas pela sociedade como masculinas.

Crianças criadas de maneira tradicional, podem muitas vezes “atrofiar” ou sequer conhecerem seus próprios talentos e aptidões devido a carga excessiva de expectativas colocadas nelas só pelo sexo biológico, que já coloca nos pais também uma série de expectativas nem sempre correspondidas, o que pode gerar de frustrações a traumas.

Em uma criação que seja mais livre de estereótipos e conceitos de gênero pré-estabelecidos, é muito maior a chance de uma criança se encontrar e ser ela mesma sem tanta pressão.

Entretanto, é preciso atenção redobrada dos pais em relação a estes filhos: “Dependendo de como for a sociedade ao redor desta criança, isso pode favorecer o bullying em questões como escola, vizinhos, etc.”, alerta a especialista em neurociência da Chicago Medical School.

(continua abaixo)


Veja também:


Nate e Julia Sharpe são pais de dois filhos gêmeos de três anos criados desta forma: Zyler e Kadyn. Note que os nomes destes filhos normalmente vem em um gênero neutro, como por exemplo, Ariel, Kim, Francis, Tainã, Noah, etc.

Pergunta: Menino ou menina? Resposta: Isso importa?

Quando Julia descobriu que estava grávida, ficou na dúvida se deveria ou não descobrir o sexo biológico do bebê pois não queria que isso influísse nas suas expectativas e nem que isso forçasse o comportamento da criança.

“Li muito sobre o assunto, como já em 20 semanas de vida, um feto é julgado e até ‘ cobrado’ de acordo com seu gênero. Garotinhas já sendo chamadas de princesinhas e meninos de garotão por toda sociedade assim que nascem. Quis deixar meu filho livre e prevenir tudo isso. Pensei: E se não revelar o gênero do meu filho para as pessoas?”

Quando nasceram, os pais pediram ao hospital que não revelasse publicamente o sexo biológico dos bebês.

A família se refere aos filhos por artigos neutros. Não “He” (ele) ou “She” (ela), mas “they” or “them” (a terceira pessoa neste caso em inglês não tem gênero definido). Como era de se esperar, um dia, Zyler perguntou a Julia o que “he” e “she significavam.

“Queríamos ter essa conversa quando eles tivessem noção disso, como quando Zyler me perguntou.”, disse Julia.

“Somos apenas mais uma família com dois filhos, acontece que criamos eles de maneira livre para gostarem e se identificarem conforme forem se conhecendo e NOS revelando, ao contrário da maioria que já dita o que o filho deve querer, gostar ou como se comportar”, afirmou Nate à reportagem que você pode assistir abaixo:

O Dr. John Steever, pediatra no Mount Sinal Adolescent Health Center de Nova York, acredita que esta nova maneira de educar uma criança sem gênero definido é benéfica pois mostra amor incondicional desde cedo à criança independente do gênero, colocando sobre ela menos pressão e expectativas dos pais.

“Quando uma criança é ensinada por uma vida que ‘deve’ ser de determinada maneira, por exemplo: ‘Você é um garoto então tem que gostar destas coisas, tem que ser pai, etc.’ e a pessoa de repente não se identifica com determinados estereótipos e isso começa a criar um bloqueio, desde uma distância dos pais até a disforia do próprio gênero na cabeça do indivíduo”, explicou o doutor.

Entretanto, estatísticas apontam que 0,6% da população costuma se identificar em um gênero diferente do atribuído ao nascimento. São as pessoas trans. Ou seja, certamente maior parte destes bebês optarão por serem tratados no gênero de acordo com seu sexo biológico, ainda que não tenha lhe sido atribuído um gênero definido no nascimento. E não há problema algum com qualquer uma das situações, a criança só vai se sentir mais livre pra ser quem realmente é.

Outro casal que também tomou a decisão de ter seus filhos sem gênero definido foram Nathan Levvit e seu marido, que vivem na região do Brooklyn em Nova York. O bebê de 18 meses do casal se chama Zo.

‘É curioso notar como as pessoas ao redor tratam meu bebê diferente se visto azul ou rosa. Estávamos em um vôo e o bebê vestia rosa, uma senhora disse: “Que menininha linda”, enquanto no dia seguinte era azul e as pessoas agiam de outro modo completamente diferente!

Não é a gente que vai dizer o gênero do nosso filho a ele, mas ele que vai nos avisar assim que souber como prefere se identificar”, explicou Nathan.

Assista também:

Criador Põe na Roda, canal do youtube de humor e informação LGBT desde 2014, com mais de 100 milhões de visualizações e 800 mil inscritos. Autor do livro "Um Livro Pra Ser Entendido", que desmistifica questões do mundo gay e sobre ser LGBT para todos os públicos. Também foi roteirista de TV (Amor & Sexo, Adnight, CQC, Furo MTV) e colunista (Folha de S. Paulo).