Aconteceu ontem no Jornal Nacional, da TV Globo, mais uma edição do quadro onde os âncoras Williiam Bonner e Renata Vasconcelos entrevistam presidenciáveis brasileiros. Dentre tudo que foi dito, houve uma série de equívocos – senão desonestidades – propagados pelo candidato Jair Bolsonaro.

Indo direto ao ponto e esclarecendo quatro das mentiras afirmadas em rede nacional, para quem quiser se informar (essencial em tempo de tanta desinformação e fake news, não?) corretamente sobre os temas:

1. O suposto livro do “Kit Gay”
O tal do vulgarmente apelidado “Kit gay”, que nada mais era do que um conjunto de materiais educativos ANTI-HOMOFOBIA para poder se discutir preconceito, a existência da diversidade e o bullying homofóbico em sala de aula, NUNCA teve o livro mostrado por Bolsonaro no Jornal Nacional.Em nota oficial (que você pode ler aqui diretamente), o Ministério da Educação desmentiu Bolsonaro de que tal livro já teria feito parte ou tenha sequer sido cogitado ser distribuído em qualquer programa de educação.

Já em 2013 inclusive, o Ministério da Educação havia respondido oficialmente à imprensa que “a informação sobre a suposta recomendação é equivocada e que o livro não consta no Programa Nacional do Livro Didático/PNLD e no Programa Nacional Biblioteca da Escola/PNBE”. Em 2013. E Bolsonaro insiste nisso até hoje, sempre se apoiando na ignorância de seus eleitores.

2. Desigualdade salarial entre Bonner e Renata
Quando se questiona sobre a desigualdade salarial por gênero no Brasil, algo comprovado pelo IBGE em um país onde mulheres ganham menos do que os homens na média, se fala necessariamente em pessoas de DIFERENTES GÊNEROS recebendo SALÁRIOS DIFERENTES MAS TRABALHANDO NA MESMA FUNÇÃO. Bolsonaro ignora completamente a questão quando – por ignorância ou má fé – “se esquece” que igualdade salarial se discute entre quem está no mesmo cargo, obviamente.

VÍDEO NOVO DO PÕE NA RODA:

William Bonner está no Jornal Nacional há muito mais tempo, seu cargo no jornal é de editor chefe e apresentador, enquanto Renata é contratada no cargo de editora executiva e apresentadora. Logo, funções e responsabilidades diferentes e hierarquicamente distintas. Na hierarquia de funções da equipe do Jornal Nacional, Bonner está acima de Renata, portanto, é perfeitamente natural que o salário de Renata não seja o mesmo que de Bonner que é seu chefe, ainda que não caiba a Bolsonaro questionar o salário de Renata, como ela explicou bem claramente e você pode conferir no vídeo abaixo:

3. Apoio da Globo à Ditadura
Pra justificar seu apreço aos militares, o exército (de onde ele foi expulso por mau comportamento) e a ditadura, Bolsonaro insiste sempre neste assunto, que data da década de 80, quando Roberto Marinho, fundador das Organizações Globo, realmente reconheceu o apoio da Globo ao regime ditatorial como algo necessário no período em que aconteceu e (pasmem!) até positivo.

Na época, era essa a visão de Roberto Marinho. Ele errou feio, errou rude. Mas o grupo Globo já reconheceu seu erro histórico, e se desculpou publicamente. Em todas as vezes que usa isso como argumento, Bolsonaro ignora o editorial de 2013 da empresa assumindo o engano grotesco que foi seu dono, falecido em 2003, acreditar e apoiar a ditadura em algum momento da história do Brasil.

Oras, estamos em 2018. A Globo reconheceu seu erro anos atrás. Não se pode cobrar alguém pelo que já se desculpou e reconheceu. Em que ano está a cabeça do presidenciável? Bolsonaro apoia ditadura e intervenção militar em 2018. Foi ele que, um ano e meio atrás no impeachment de Dilma exaltou um ditador e torturador em seu discurso. O editorial de Roberto Marinho era da década de 80. Foi reconhecido como erro. E fim de papo. Se tem alguém que em 2018 apoia ditadura e golpe militar, este alguém é muito mais Jair Bolsonaro e seu vice General Mourão, do que a TV Globo.

4. Seminário LGBT na Câmara
Bolsonaro também inventou um “9º seminário LGBT infantil”. Nunca existiu “Seminário LGBT infantil”. Em 2012, ocorreu de fato o “9º seminário LGBT no Congresso Nacional”, que é o que ele distorce o nome e os fatos, fazendo parecer até que se estivesse debatendo sexualidade com crianças, por exemplo. E o eleitor ignorante acredita nisso… Não foi isso.

O tema do “Seminário LGBT no Congresso Nacional” de 2012 era “infância e sexualidade”, e o evento reunia palestrantes, políticos, psicólogos, ativistas LGBTs, representantes da sociedade e profissionais da área da saúde para debater assuntos como a violência nas escolas contra quem, desde infância, não se encaixa nos padrões definidos pela sociedade, seja em relação a aparência, orientação sexual ou identidade de gênero, como já explicou a matéria originalmente publicada na Carta Capital.

A violência e bullying homofóbico nas escolas é uma realidade alarmante e não a toa a taxa de evasão escolar de pessoas trans, por exemplo é altíssima. Qual alternativa tem na vida adulta esta pessoa que sofreu tanta rejeição na escola e abandonou os estudos, senão a marginalidade?

Fora notícias como a de um menino de 9 anos que se matou após contar na escola que era gay e sofrer muito bullying e rejeição por isso, devido principalmente ao preconceito e ignorância dos seus colegas, e claro, seus pais que não ensinaram o respeito e tolerância, uma das coisas a que se propõe discutir um seminário destes.

Mas o que pode-se esperar de um deputado que já disse que “filho gay é falta de porrada”, não é mesmo?

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Criador Põe na Roda, canal do youtube de humor e informação LGBT desde 2014, com mais de 100 milhões de visualizações e 800 mil inscritos. Autor do livro "Um Livro Pra Ser Entendido", que desmistifica questões do mundo gay e sobre ser LGBT para todos os públicos. Também foi roteirista de TV (Amor & Sexo, Adnight, CQC, Furo MTV) e colunista (Folha de S. Paulo).