Governo brasileiro pede que gays sejam discretos na Copa na Rússia

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Já são 60 mil os brasileiros que compraram ingressos e devem embarcar para a Rússia para acompanhar os jogos da Copa. Mesmo sabendo que se trata de um país que desrespeita os direitos humanos, pelo menos parte deles deve ser LGBT, não é mesmo? Do Brasil e do mundo todo. Não a toa, semana passada noticiamos aqui que o governo russo já deu seu aviso aos turistas LGBT.

Mas agora foi o Itamaraty – Ministério das Relações Exteriores do Governo Brasileiro – preparou uma cartilha em versões impressas e digital com algumas recomendações para que turistas brasileiros não corram tanto perigo em um país retrógrado e com preconceito tão institucionalizado como a Rússia.

Uma das orientações expressas no material recomenda que “demonstrações homoafetivas em ambientes públicos sejam evitadas” afim de não se contrariar a lei russa, que proíbe qualquer manifestação pública que tenha ligação com a causa LGBT, não só possíveis manifestações de afeto entre casais de gays e lésbicas, mas também qualquer manifestação como carregar bandeira, broche, mesmo que você seja heterossexual, caso a polícia Russa cisme, você pode ser penalizado ou preso, fora a chance de ser agredido pela própria população russa, extremamente homofóbica.

(continua abaixo)

Vídeo novo:



Luíza Ribeiro Lopes da Silva, diretora do Departamento Consular e de Brasileiros no Exterior do Itamaraty, explicou que a medida é por segurança: “O papel da cartilha é preventivo na tentativa de evitar problemas com turistas brasileiros durante o evento na Rússia”.

Além disso, o guia sugere também que se evite manifestações públicas sobre temas políticos, ideológicos e sociais, além de recomendar série de comportamentos a se evitar que costumam ser vistos como inadequados para os russos, e provavelmente não sejam tão incomuns assim no Brasil. É o caso de subir em cercas, instalações de iluminação, mastros, estruturas de sustentação ou assentos, e até mesmo o uso de instrumentos musicais no estádio.

Não é revoltante? Não que o Itamaraty faça isso, porque de fato, a Rússia é um país homofóbico e preconceituoso e o governo brasileiro está apenas recomendando o que a gente deve fazer para acabar não se envolvendo em confusão e se dando mal por lá. Mas revoltante é tentar entender a lógica de um país tão retrógrado ser escolhido pra ser sede de um evento MUNDIAL que deveria, primeiramente, ser realizado em qualquer lugar que saiba receber bem TODAS AS PESSOAS, todos os costumes, todas as religiões, todas as etnias, culturas… Oras, é um evento que envolve pessoas de todo planeta!

Não é no mínimo uma irresponsabilidade da Fifa fazer isso sem se preocupar com a segurança dos torcedores?! Ou a Fifa continua com a cabeça no século passado, achando que só quem torce pra futebol é homem hétero cisgênero?

Não seria O MÍNIMO existir uma regra básica de que qualquer país que se candidatasse a receber o Mundial, tivesse que cumprir uma lista básica de Direitos Humanos, e caso não cumprisse o requisito, nem poderia competir pela vaga?! É só o dinheiro mesmo que vale Fifa? E os patrocinadores e marcas que patrocinam a Copa, durante o ano vão continuar pagando de militantes LGBT ao redor do mundo muitas vezes, fechando os olhos pra tudo isso?

E ao Itamaraty, fica um conselho: Que tal, além de cartilha de como cidadãos LGBTs brasileiros devem se comportar, uma carta de repúdio pública a um país – e a Fifa que o escolhe como sede – que coloca em risco a vida dos seus cidadãos que estão viajando pra lá prestigiar um evento que eles estão sediando? Seria o mínimo, antes de recomendar como a gente deve se comportar pra não ser morto por ser quem é, garantir a nossa segurança. Brasileiros (e LGBTs do mundo todo) que agora devem evitar serem eles mesmos pra não serem agredidos e todo mundo vai fingir que isso é normal?

Essa carta seria, no mínimo, uma atitude de respeito pra com seus próprios cidadãos, bem antes dessa cartilha cheia de recomendações de como sobreviver em um país retrógrado, preconceituoso e cruel como a Rússia. Mas o que mais pode-se esperar de um país que mata milhares de cachorros de rua pra “limpar” a cidade para a Copa, não é mesmo? E que finge que a aniquilação de homossexuais na Chechênia, seu território, não existe…

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